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domingo, 23 janeiro 2022
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“Risadas Pretas Importam” dia 20 no Theatro Municipal

No tão simbólico 20 de novembro, o espetáculo "Risadas Pretas Importam", estrelado, produzido e dirigido por pessoas pretas, estreia no Theatro Municipal.

Risadas pretas importam. É o título do espetáculo deste texto, sim, mas é também uma afirmação. Risadas pretas importam. Não por ser apenas um momento mais leve no meio de tanta turbulência. Rir também é resistência, é viver. É viver para além do sofrimento, para além da sobrevivência. É viver plenamente, ainda que seja por alguns minutos. É lembrar que nossas existências também dizem respeito à sentimentos, vivências e experiências positivas. E poucos lugares na cidade de São Paulo poderiam ser um exemplo tão interessante dessa intenção do que o Theatro Municipal.

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E o Theatro Municipal lá é lugar pra preto?!

Eu cresci numa vizinhança relativamente próxima ao centro de São Paulo. Passada minha adolescência, também comecei a trabalhar na região. De tantas as vezes em que estive no centro, para trabalhar, almoçar, visitar lugares como a Galeria do Rock, nunca me ocorreu visitar o Theatro Municipal. Na verdade, eu achava que era mais um lugar histórico do que um lugar para visitação. Nunca pensei em pesquisar, sempre imaginei que estivesse fechado. E, apesar de ter passado por reformas, ele teve exibições que nunca me ocorreram até “AmarElo”.

“AmarElo” foi o álbum lançado por Emicida no final de 2019. O show de lançamento aconteceu no Theatro Municipal e, entre outras coisas, o artista falou sobre a importância da realização daquele evento naquele lugar com pessoas pretas ocupando tantos assentos, inclusive pessoas ativas no Movimento Negro. Porque há muito aquele era um lugar negado mesmo àqueles que há tanto frequentavam o centro da cidade.

Essa afirmação chegou como uma avalanche de sentimentos e pensamentos que eu nunca tinha experimentado e, apesar de eu entender que, sim, tem espaços que nós temos por direito que ocupar, nunca tinha me ocorrido que o Theatro Municipal é nosso lugar, sim.

Risadas Pretas Importam e o Theatro Municipal

É por este, mas também muitos outros motivos que o espetáculo “Risadas Pretas Importam” é tão simbólico e importante. Esta é a primeira vez que um espetáculo de comédia preta é exibido neste espaço. Dos humoristas à direção, “Risadas Pretas Importam” é um show preto. Não é preciso ir muito longe para saber a diferença que isso faz. Quantas produções com a intenção de abordar uma perspectiva negra falharam porque a representação negra não passava dos atores encenando? Porque não havia pessoas pretas na equipe, por trás das câmeras? No ano passado, a Netflix lançou o filme “The 40 Year-Old Version” que, apesar de ter sido escrito e protagonizado por Radha Blank na vida real, fala sobre a diferença de um olhar enviesado para produções negras quando dirigidos ou financiados por pessoas sem consciência racial. E “Risadas Pretas Importam” traz o humor para o povo preto feito pelo povo preto.

Com direção de Marton Olympio e curadoria de Hélio de la Peña, o evento acontece em 20 de novembro a partir das 21h30 e reúne um time de peso: Gui Preto, Kedny Silva, Yuri Marçal, Helio De La Peña, Niny Magalhães, Paloma Santos e Zete Brito. E conta ainda com DJ Jé Versatil. Para falar desse marco da comédia, conversamos com o ator, escritor, humorista, apresentador e curador Hélio de la Peña.

"Risadas Pretas Importam" acontece em data simbólica no Theatro Municipal. (Foto: Reprodução)
Conversamos com Hélio de la Peña sobre o espetáculo “Risadas Pretas Importam”. (Foto: Reprodução)

Hélio de la Peña

O botafoguense e pai de 3 tem mais de 40 anos de experiência com o humor atuando nos mais diversos campos da indústria audiovisual, seja na frente das câmeras, como um dos membros do famoso programa de comédia “Casseta & Planeta”, ou por trás delas, como autor da obra “O Livro do Papai”, por exemplo, que ele posteriomente adaptou para a TV. Todos esses anos de atuação, direção e produção lhe concedem um lugar singular para apontar as transformações que ele enxerga para pessoas negras na TV, no teatro e, mais especificamente, na comédia, que é o tema de “Risadas Pretas Importam”. Confira trechos da entrevista abaixo:

TNM: No show do Emicida no Theatro Municipal, ele falou sobre o quão simbólico aquele evento era, pensando na relação que pessoas pretas construíram e constroem com o centro da cidade, que ainda assim criava um certo distanciamento de lugares como esse, por acharem que não pertenciam a estes espaços. Como você enxerga esse evento de comédia em pé idealizado e protagonizado por pessoas pretas neste local e nessa data que é também tão simbólica para o nosso povo?

Hélio de la Peña: Eu realmente acho que esse evento tem essa importância. Ele foi, na verdade, pavimentado pelo espetáculo do Emicida que foi inédito lá no Theatro Municipal, mas a gente também tá vendo um ineditismo no nosso show, uma comédia preta dirigida, protagonizada, produzida por talentos pretos. E nesse lugar tão nobre, 99 anos depois do lançamento da Semana de Arte Moderna pelo Mário de Andrade. Então a gente vê um valor enorme tanto para quem tá no palco quanto pra quem tá na plateia porque eu tenho certeza que a maior parte das pessoas que estarão lá pra nos ver estão indo pela primeira vez no Theatro Municipal.

TNM: Essa semana, pude acompanhar uma fala da professora Ellen Souza falando sobre como para o povo preto brincar é coisa séria e sorrir é um ato de resistência. Você enxerga esse espetáculo como um ato de resistência ou pra você o prazer e os atos políticos estão apartados?

Hélio de la Peña: Pra mim, o humor é um ofício. Eu brinco, eu levo a sério meu ofício. Trabalho com ele há 40 anos. E trabalho de fazer os outros rirem, né. E fazer os outros rirem muitas vezes de situações desconfortáveis, como até a situação política do nosso país, como também questões de comportamento, questão de atitude, questões que dizem respeito à relação das pessoas pretas com o resto da sociedade.

Então, a gente sabe que é um tema sério, um tema delicado, mas estaremos lá justamente para mostrar com a nossa arte, que é o humor, deixar às claras as atitudes racistas e a forma como a gente reage a elas. Muitas vezes mostrando uma reação, muitas vezes fazendo um retrato da situação para mostrar o quão ridícula e absurda é a atitude racista.

TNM: Me lembro que, anos atrás, quando o clube de assinaturas da TAG começou, você foi um dos primeiros curadores negros e até troquei alguns e-mails com eles perguntando se havia outros programados para o decorrer do ano. Pensando nisso e na sua longa carreira trabalhando com audiovisual, você acha que faz diferença criar e atuar num ambiente possivelmente mais acolhedor, sem a preocupação de ocupar o lugar do único negro?

Hélio de la Peña: Eu, na verdade, me habituei a trabalhar, atuar num ambiente onde eu fosse uma minoria. Vejo ali uma missão, uma função de ocupar um espaço, de me infiltrar num espaço às vezes até de privilégio e colocar o meu ponto de vista em ocupar espaços que antes são considerados proibidos para negros quando na verdade eles são são cerceados por questões sociais.

Então uma vez que você não tem um apartheid absolutamente explícito na sociedade, vamos ocupando os espaços porque nós temos todo esse direito e temos legítima capacidade de integrá-los. A dificuldade decorre muitas vezes do fato de você não ter as condições. E eu sei que eu sou uma exceção até no privilégio de ter tido uma formação sólida, coisa rara. Tenho consciência também de ser uma exceção nesse espaço e procuro ocupá-lo da melhor maneira de forma que no longo prazo a gente consiga democratizar os espaços privilegiados.

Obviamente que quando você está num ambiente mais acolhedor, um ambiente em que você não é a exceção, você sente um conforto e isso é muito bacana. Eu sinto muito isso fazendo show com esse grupo de comediantes negros. Mas a minha preocupação também é não me acomodar nesse espaço e passar apenas a pregar para convertidos. Eu acho que temos uma missão de tentar transformar mentalidades tanto de pretos quanto de brancos para que as coisas no futuro fiquem melhores.

Para conferir os (poucos) ingressos disponíveis, clique aqui.

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Thais Senahttp://www.todosnegrosdomundo.com.br
Sou professora de inglês, formada em Comércio Exterior, estudante de Pedagogia na Universidade Federal de São Paulo e parte do grupo de Pesquisa Laroyê - Culturas Infantis e Pedagogias Descolonizadoras. Já atuei como professora voluntária e em projetos populares, fez formação em parceria com a Prefeitura de São Paulo e o Conselho Britânico e há 6 anos atua também na Ebony English, que ensina inglês com cultura negra.
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