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quarta-feira, 08 dezembro 2021
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20 de novembro: O que esse dia representa para você?

A Consciência Negra é comemorada em 20 de novembro, sendo uma data simbólica, por isso conversamos com algumas pessoas para saber o real significado desse dia

Para pessoas brancas, o dia 20 de novembro pode ter milhões de significados. Em alguns lugares, é um feriado, para outros, é um dia de aprendizado ou ainda mais uma data sem sentido. E para pessoas pretas? Como é lidar com a exposição? Principalmente na era digital.

Com o alcance da internet, qualquer tema se intensifica. Sendo assim, o dia 20 no Instagram ou Facebook se torna uma atração. Todos querem dar uma opinião, mesmo aqueles que nunca se aprofundaram na questão racial, afinal, como toda data, essa também gera engajamento. No meio disso, a conversa séria e efetiva sobre o combate ao racismo e o respeito a história pode se perder.

O design gráfico Cayo Rosa sabe muito bem como esse impacto é levado para outros lados. “Falando em redes sociais, sinto raiva por sempre ver um ou outro comentário negativo a respeito disso. O famoso vídeo do Morgan Freeman me irrita profundamente. É um tamanho desserviço, pior ainda do que não reconhecer o mês e deixar ‘passar em branco’. O papinho de “mês da consciência humana” é a pior bola fora possível.”

Design Gráfico, Cayo Rosa conta sobre o que mais atrapalha a celebração do dia 20 de novembro
Design Gráfico, Cayo Rosa conta sobre o que mais atrapalha a celebração do dia 20 de novembro | Foto: Arquivo pessoal

A publicitária Dominique Isis, de 22 anos, declara que a data em si tem uma grande importância para o debate racial. “Acho super importante ter um mês específico para ouvir e falar sobre. Mas, para mim, o dia da Consciência Negra é só mais um dia. Eu vivo a Consciência Negra todos os dias do ano. Então isso que as pessoas fazem de só despertarem para questões sociais, de conversar sobre raça no mês de novembro ou no dia 20 de novembro, eu já faço toda hora.”

Em um país como o Brasil, formado pelas desigualdades sociais, é preciso muito mais do que apenas falar sobre o racismo em novembro. São necessárias medidas efetivas, principalmente no ramo da educação e emprego.

Um estudo da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Inovação e Simplificação (SMDEIS) do Rio de Janeiro mostrou que a taxa de participação das mulheres negras no mercado de trabalho caiu nove pontos percentuais na cidade. Inclusive, a editora de vídeo Mariane Neves reforça que esse tema devia ser uma prioridade.

“Acredito que a desigualdade no mercado de trabalho impacta bastante, e se tem empresa que gosta de falar sobre, também deveria agir em relação a contratação de pessoas negras, é basicamente: se você está usando essa pauta, que seja o ano inteiro e não apenas um dia do ano.”

A entrevistada Mariane Neves também dá as sua opinião sobre o 20 de novembro
A entrevistada Mariane Neves também dá as sua opinião sobre o 20 de novembro | Foto: Arquivo Pessoal

O que é Consciência Negra?

A visibilidade preta do dia 20 de novembro

A mobilização digital pela data da Consciência Negra, muitas vezes feita por influenciadores brancos, pode dar a impressão que preto só existe no dia 20. Com isso, é comum ver pessoas compartilhando e divulgando o trabalho da população negra nessa época. Já o pós Consciência Negra fica esquecido.

“Acho que a questão seria: O que você acha que falta para as pessoas começarem a reparar nos pretos durante todos os meses do ano. Porque a maioria da sociedade gosta de rap, de hip hop, de corrente de ouro, trança e o diabo a quatro. Esse pessoal racista gosta de tudo isso, menos de preto. Eles celebram nossa cultura, nossa arte, nossa visão de mundo. Só não celebram a gente mesmo”, afirma Cayo.

Além disso, pode surgir a dúvida sobre essa visibilidade e representatividade realmente fazer ou não diferença já que muitos tratam apenas como uma data comercial e não fazem o mínimo para mudar a realidade.

No meio publicitário, vemos exemplos claros de comerciais que não representam e estão ali apenas para preencher um cronograma de postagem. Dominique entende que esse equívoco acontece pelo simples fato de ser tão comum ignorar a existência das pessoas de cor.

A publicitária Dominique Isis fala sobre o dia 20 de novembro
A publicitária Dominique Isis fala sobre o dia 20 de novembro | Foto: Arquivo pessoal

“Os caras não se dão ao trabalho de contratar pretas para fazer uma consultoria antes de lançar uma campanha, em algo pode ser ofensivo para uma comunidade. Uma pessoa branca nunca vai realmente saber o que uma pessoa negra pensa. Outro erro também é achar que todos os pretos do Brasil e do mundo são a mesma pessoa, que somos um bloco homogêneo, pensando da mesma forma.”

Projeto Sankofa está no SPFW

Então, como seria a feita uma conscientização de verdade?

Vimos que mesmo uma data como 20 de novembro pode perder seu significado e até mesmo ser usada de uma forma errônea. Mas isso não apaga a importância de se ter um debate racial bem construído. O Brasil sempre ignorou a questão racial. Pessoas brancas, por exemplo, não se veem como seres racializados e por isso não entendem seu papel, ou não querem entender.

“A Consciência Negra não deve ser apenas uma data, e se for, que as pessoas saibam realmente o que significa. As pessoas brancas sabem da história delas a vida inteira, a nossa foi apagada, e hoje a gente tenta resgatar algo, e isso deveria ser mostrado, não como a gente aprendeu nas aulas de história, mas sim, o que realmente aconteceu”, afirma Mariane.

Não temos como medir o nível de impacto do dia 20 de novembro, mas sabemos que muita coisa melhorou. Temos mais representatividade, porém falta construir uma consciência duradora. Temos mais negros na televisão, nas publicidades e em outros lugares que antes eram proibidos, só não podemos esquecer que essas são exceções.

Além disso, usar uma pessoa preta “padrão”, como Iza, Michael B. Jordan e outras figuras carimbadas para falar de amor preto ou de conquista é resumir, mais uma vez, todos os negros a uma pequena parcela da comunidade.

Essas e outras questões devem ser aperfeiçoadas. Muito se fala em educar aquele que não entende sobre raça e até seria uma forma de combate ao racismo, só que esse ensinamento precisa começar dentro da escola, com as crianças. É muito difícil delegar ao preto o trabalho árduo de educar o branco que se sente confortável na posição de poder dada pelo sistema escravista.

Realmente acho que as pessoas vão ter consciência das questões sociais quando elas virem que são parte dos problemas,” afirma Dominique.

Tentamos aqui trazer alguns pontos importantes. O dia 20 de novembro é sim uma data marcante, tem a sua história. É uma homenagem a Zumbi dos Palmares, aquele que resistiu, lutou e provavelmente sonhou com muito mais que liberdade para os pretos.

Vídeo produzido pelo Brasil de Fato sobre a cultura de resistência do dia 20 de novembro, acesse o link para ver a matéria completa.

Mas não é somente isso que vai extinguir o racismo. É um dia comum na vida de um preto, não precisa ser usado de holofote por pessoas brancas, precisa de consciência, estudo e responsabilidade.

Bons exemplos

A Consciência Negra também traz seus bons exemplos, um deles foi o lançamento da música “Ostentação da Cultura”, da Tássia Reis e do Djonga. O clipe é uma peça publicitária com parceria do Mercado Livre.

Todas as marcas que aparecem são bem sinalizadas e estão disponíveis na loja da Feira Preta. A sacada foi muito boa, uniu o talento de dois cantores geniais, o maior evento de cultura negra da América Latina e o mês da visibilidade preta.

Importante ressaltar que a campanha é uma “bola dentro” porque foi produzido por pretos e para pretos. “Um clipe feito por pessoas pretas. Com produtos de empreendimentos de pessoas pretas. Cultura é a nossa maior riqueza. Nunca deixe de ostentar a sua.”

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Maria Angélicahttp://www.todosnegrosdomundo.com.br
Tenho 22 anos, sou nascida e criada no litoral, caiçara com muito orgulho. Além disso, também sou formada em Comunicação Social - Jornalismo. Sempre me encantei com o poder das palavras e por isso sinto que o jornalismo me escolheu, durante a minha breve trajetória profissional tive a oportunidade de contar histórias lindas e é o que pretendo continuar fazendo.
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