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sábado, 21 maio 2022
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Emicida já dizia: “Lembra que a gente é feito das mesmas coisas que são feitos os sonhos?”

Quais eram ou são seus sonhos de infância? Quantos deles você já realizou? Na correria da rotina de fazer comprar pra aguentar ficar no trabalho / ficar no trabalho porque tem muitas contas pra pagar / administrar uma casa e uma família, essas reflexões às vezes ficam meio de lado.

Você enxerga homens negros para além de lugares de violência?

Esse vai ser um texto com algumas referências musicais. Além do título, vou começar citando Luedji Luna, mais especificamente com a faixa “Cabô”, em que ela diz:

Cabô, vinte anos de idade
Quase vinte e um
Pai de um, quase dois
E depois das 20 horas
Menino, volte pra casa!
Cabô

Ô, Neide, cadê menino?

Cabô, quinze anos de idade
Incompletos seis
Eram só 6 horas da tarde
Cabô, cadê menino?

Quem vai pagar a conta?
Quem vai contar os corpos?
Quem vai catar os cacos dos corações?
Quem vai apagar as recordações? (eh, eh)
Quem vai secar cada gota?
De suor e sangue
Cada gota de suor e sangue
De suor e sangue
Cabô

Se algum dia brotar alguma dúvida do lugar que a branquitude reserva para um jovem preto, é esse aí. Quem é que ousa sonhar num país onde não se passa um dia sem que um de nós seja assassinado? Quantas Neides não conhecemos que não têm sossego até os filhos botarem os pés em casa toda noite? E quantos meninos não têm suas vivências, seus sonhos, suas rotinas massacradas por aquilo que é esperado deles nessa sociedade?

O riso reservado a Luciano, que sonha em – e sabe que vai – conseguir ser famoso não é por acaso. Há um lugar muito específico reservado a jovens pretos no Brasil e esse lugar não é a fama.

Pode ser nas mãos da polícia, pode ser na criminalidade, pode ser até num trabalho em que ele não seja muito desafiado intelectualmente – e não que tenha algo de errado com isso porque a ideia de que nosso valor está fundado no trabalho é capitalista e escravocrata e nem que haja mais ou menos mérito de acordo com o que é estabelecido como intelectualidade e depois na maneira como esse conceito é aplicado no mercado de trabalho. O fato é que é sempre um lugar de subalternidade.

É por isso que Thiaguinho é abordado em restaurantes, por exemplo, em que mulheres brancas pedem para tirar fotos com ele e só depois perguntam se ele é jogador ou cantor de pagode. Essas mulheres se sentem à vontade inclusive para dizer: “Ah, falei pro meu marido que você só podia ser jogador ou cantor”. E, de novo, nada de errado em ocupar qualquer um desses espaços. A gente só não pode ocupar única e exclusivamente esses espaços, né?

Sem contar que mesmo nessas posições, continua havendo uma expectativa de subalternidade da parte desses homens. Do contrário, Colin Kaepernick não teria sido demitido após se ajoelhar durante o hino nacional antes do início de um jogo em forma de protesto à violência policial nos Estados Unidos. E Ava DuVernay não precisaria fazer uma série a respeito de sua vida. E nem a série teria sido tão popular quando estreou.

Qual é o lugar para os nossos sonhos?

Nossos sonhos não têm lugar específico, têm? Eles estão na Ludmilla, que sonhou em ganhar dinheiro vivendo de música com um balé que fizesse parte dos seus shows e foi lá e fez. Está no Luciano, que tinha como objetivo ser famoso, entrou para o BBB e, nas considerações de sua mãe que julga famoso todo mundo que já apareceu na TV, foi lá e fez. Isso pra falar dos individuais.

Mas eles também podem ser coletivos. Pode ser o Emicida dizendo que você vai conseguir terminar aquela facul, que ele vai te encontrar no pódio, pode ser através do primeiro diploma de ensino superior que você vai levar pra sua família e as mudanças sociais que isso trará pra você e pra sua comunidade, pode ser o sonho em que a gente vai conseguir se livrar das amarras das imposições da branquitude sobre os nossos próprios corpos.

Que venham Lucianos. E Marielles para que vivam e sejam celebradas em vida. E Ludmillas e Aishas e Dandaras e Akins e Maliks. E que eles sejam só o começo.

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Thais Senahttps://todosnegrosdomundo.com.br
Sou professora de inglês, formada em Comércio Exterior, estudante de Pedagogia na Universidade Federal de São Paulo e parte do grupo de Pesquisa Laroyê - Culturas Infantis e Pedagogias Descolonizadoras. Já atuei como professora voluntária e em projetos populares, fez formação em parceria com a Prefeitura de São Paulo e o Conselho Britânico e há 6 anos atua também na Ebony English, que ensina inglês com cultura negra.
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