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segunda-feira, 16 maio 2022
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Estreia do BBB22: Letramento racial e outras reflexões

Chegou o momento! A estreia do BBB22 já conseguiu movimentar as discussões na internet, porém é sempre possível aprofundar um pouco mais

A segunda-feira (17) teve o seu marco com a estreia do BBB22. Aquele clima de animação, companheirismo e alegria não durou tanto, já que os participantes engataram em algumas conversas com temas mais densos e difíceis, o que foi interessante para o público conhecer mais um pouco sobre a opinião de cada um. Mas, como já comentamos, um jogo como este é imprevisível, pois depende da postura de cada pessoa.

Neste primeiro momento, os comentaristas de plantão do Twitter já têm suas teorias e o público parece ter abraçado alguns participantes, como por exemplo o pipoca Vyni, que continua esbanjando carisma. Mas a noite não foi apenas de risos e graças, algumas falas problemáticas estão repercutindo com muita força.

O que esperar do BBB 22?

Assuntos mais comentados da estreia do BBB22

Naiara Azevedo com certeza foi um dos tópicos mais falado nas redes. Muitos já estavam de pé atrás com a cantora, bolsonarista declarada. Porém o que surpreendeu foi quando ela afirmou que “não vê cores”. Aquele velho e bom papo da filosofia “somos todos iguais”.

Muitas pessoas brancas e até alguns pretos também acreditam nessa história de que não existe raça. É basicamente um aviso para o movimento parar de falar de racismo que ele vai magicamente desaparecer. Alguns descobrem com o tempo que isso não passa de uma fantasia do imaginário branco, outros se beneficiam com tal pensamento e assim os privilégios de uma raça nunca são contestados.

Na mesma roda de conversa, a participante Natália Deodato fez uma afirmação inusitada sobre a escravidão. Em sua opinião, o sistema escravocata utilizou da força de trabalho preta por ser um grupo eficiente e forte.

A frase em si causou um grande impacto e algumas pessoas pretas rebateram o pensamento de Natália. Logo nessa estreia do BBB22, percebemos a dificuldade de dialogar sobre raças de maneira consciente.

Não estamos aqui para tacar pedras em nenhuma das duas, apenas para refletir sobre como a noção racial no Brasil, seja para brancos ou pretos, é distorcida. Claro que isso é apenas mais um fruto do racismo estrutural, mas para discutir inteiramente essas duas opiniões, podemos fazer uma conexão com o conceito de letramento racial.

A sombra do privilégio branco

Mas o que é o letramento racial?

O conceito de letramento racial da antropóloga afro-americana France Winddance Twine e a estreia do bbb22
O conceito de letramento racial da antropóloga afro-americana France Winddance Twine e a estreia do bbb22 | Foto: Reprodução

O conceito foi difundido pela antropóloga afro-americana France Winddance Twine. Grosso modo, é uma proposta de reeducação para descontruir o racismo, porém necessita da colaboração e percepção de todas as raças.

Quando alguém afirma que não enxerga a raça, só reforça a falta de entendimento sobre o assunto. Ainda mais se tratando de uma pessoa branca que usufrui dos benefícios dessa organização racial. Não é possível julgar as intenções de Naiara logo de cara, mas é preciso repensar esse discurso do branco inseto, que apenas quer a igualdade coletiva, mas não se movimenta, não questiona e muito menos está disposto a ouvir.

De forma simplificada, o letramento racial é se entender como um ser racializado, seja branco, amarelo, indígena e preto, sabendo como isso afeta a sua dinâmica dentro de uma sociedade. Partindo disso, o branco precisa sim ver cores e entender que a sua cor oferece oportunidades, conquistas e faz dele parte da supremacia. Somos uma sociedade com padrões eurocêntricos, por isso a forma de agir, pensar e se ver dentro desse contexto deve sim ser descontruída.

Esse conceito remete à racialização das relações, ou seja, o estabelecimento arbitrário de direitos e lugares hierarquicamente diferentes para brancos e não-brancos, que legitima uma pretensa supremacia do branco. Portanto, o racismo pode (e precisa) ser desconstruído, combatido, o que implica necessariamente lutar para que todos sejam efetivamente reconhecidos como cidadãos e que tenham de fato seus direitos garantidos.

Por Neide A.de Almeida Do Fundação Tide Setubal, para Portal Geledés.

A teoria também depende de uma prática, mas talvez alguém tenha a pergunta sobre o que a estreia do BBB22 tem a ver com isso. Simples, ao observar as opiniões emitidas, sabemos de fato que nossa sociedade carece do quesito racial. Até mesmo Natália, que é uma participante preta, expressou sua convicção por um olhar branco.

Ao afirmar suas teorias sobre a escravidão, passou uma ideia de que foi algo benéfico ou que temos que tirar o melhor de todas as situações, mesmo das mais absurdas. Podemos também dizer que esse pensamento faz pacto com a escravidão moderna e da necessidade de “se matar” de trabalhar para provar um valor, sabemos que os pretos sofrem mais dessa sina, exatamente pelas marcas que esse período deixou.

O que sabemos de fato é que a opinião de uma pessoa negra não é uma regra, somos uma comunidade diversa. Além disso, ter essa consciência racial no Brasil é uma tarefa árdua, muitos passam anos sem se reconhecer, ou buscando uma aceitação branca que nunca vão ter. Não sabemos como foi o contato de Natália com a negritude e nem podemos prever sua trajetória no programa. Porém, a estreia do BBB22 causou uma impressão da falta de abordagem racial que nos cerca.

Ressaltando que a estreia do BBB22 foi apenas uma pequena parcela de tudo que ainda estar pro vir nos três meses de confinamento. Assistir o programa e analisar algumas situações é diferente de incitar o ódio e o cancelamento. Com a força da internet e a audiência do Big Brother, é preciso ter responsabilidade em relação à vida do próximo. O importante é repensar atitudes e contribuir para um debate saudável.

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Maria Angélicahttps://todosnegrosdomundo.com.br
Tenho 22 anos, sou nascida e criada no litoral, caiçara com muito orgulho. Além disso, também sou formada em Comunicação Social - Jornalismo. Sempre me encantei com o poder das palavras e por isso sinto que o jornalismo me escolheu, durante a minha breve trajetória profissional tive a oportunidade de contar histórias lindas e é o que pretendo continuar fazendo.
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