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Elza Soares, a mulher que caminhava junto com o tempo, vive para sempre

A Mulher do Fim do Mundo nos deixou essa quinta-feira (20)

Elza Soares, cantora, compositora e personalidade lendária e inigualável se despede do mundo aos 91 anos de idade. De acordo com as informações divulgadas pela assessoria da artista, ela morreu em casa, no Rio de Janeiro, às 15h45, de causas naturais. Nasceu em 23 de junho de 1930, criada na favela de Moça Bonita, no Rio de Janeiro, Elza contrariou todas as estatísticas. Veio de família pobre e ganhou prestigio com a sua voz inconfundível.

Lutou contra o machismo, o racismo e todo o preconceito que reina no Brasil, se tornando um dos maiores ícones da MBP. Além disso, foi e sempre será uma inspiração. Com letras fortes e sua voz grave, Elza se fez ser ouvida e nos ensinou o poder da autenticidade.

Elza Soares lançou 34 discos e soube diversificar, se aproximando do samba, do jazz, da música eletrônica, do hip hop, do funk e dizia que a mistura era proposital. O seu último álbum foi o “Planeta Fome”, de 2019.

O título foi extremamente bem pensando, sendo uma alusão ao episódio em que foi constrangida por Ary Barroso no programa de calouros que participou nos anos 50. “De que planeta você vem, menina?”, perguntou o apresentador. E ela respondeu: – “Do mesmo planeta que você, seu Ary. Eu venho do Planeta Fome.”

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“Eu sempre quis fazer coisa diferente, não suporto rótulo, não sou refrigerante”, comparava Elza. “Eu acompanho o tempo, eu não estou quadrada, não tem essa de ficar paradinha aqui não. O negócio é caminhar. Eu caminho sempre junto com o tempo.”

Elza Soares no desfile de carnaval em 2020
Elza Soares no desfile de carnaval em 2020 – DIKRAN JUNIOR/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Em 2015 lançou “A mulher do fim do mundo”, onde fez um pedido: “Me deixem cantar até o fim”. E, de fato, Elza Soares cantou até o fim, inclusive tinha um show marcado na Casa Natura, em São Paulo, ao lado do rapper Renegado, no dia 3 de fevereiro.

O rapper postou a homenagem que a Mocidade Independente de Padre Miguel prestou à. cantora. Ela foi a inspiração do samba enredo de 2020, intitulado de “Elza Deusa Soares” com o qual a escola foi vencedora.

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Do inicio ao fim: Elza Soares

A vida da cantora foi marcada por abusos, perdas e dores irreparáveis, mas também por muita perseverança. A primeira fase da cantora tem discos gravados nos anos 60 com o cantor Miltinho (1928–2014) e o baterista Wilson das Neves (1936–2017). Com o tempo, Elza misturou alguns outros estilos, sempre mantendo suas origens.

Em 1980, quase desistiu de sua carreira. É impossível pensar em como seria a música brasileira sem os futuros lançamentos dessa cantora, que caminhou pela bossa nova, com uma interpretação única e seguiu fazendo parcerias de sucesso. Como disse Anelis Assumpção, Elza é o maior atravessamento da música brasileira. Até mesmo com o rock. Em 2017, lançou o single “Na pele”, com a cantora Pitty. A música passava a força e a grandiosidade de Elza, que roubou a cena.

Elza Soares sempre foi Elza Soares. No episódio com seu nome do podcast “Negro da Semana”, Alê Garcia conta mais sobre a vida cantora, dos artistas a quem ela se disse grata pelo apoio que recebeu num momento em que sua carreira não ia tão bem até sua vida amorosa.

Aliás, nem mesmo quando se envolveu com o jogador Garrincha a artista perdeu o posto para se tornar esposa de jogador. Por obra do destino, ou não, ambos faleceram no mesmo dia, com 40 anos de diferença. Em 2018, numa entrevista para Pedro Bial, a cantora mais uma vez confessou seu amor pelo ex parceiro.

Elza Soares e Garrincha
Elza Soares e Garrincha — Foto: Reprodução

Eu sonho muito com o Mané. O maior amor da minha vida foi ele … Ele me prometeu e disse: ‘Olha, criola, essa Copa eu vou dar pra você, vou fazer gol pra você (…) Eu nunca gostei de ser mulher de fulano. Eu sou eu. Não era preciso ser mulher do Garrincha pra ser a Elza Soares. O Garrincha era marido da Elza Soares.”

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É impossível contar cada grande feito dessa mulher ou mensurar sua importância para o Brasil e para o mundo. Com uma vida cheia de adversidades, Elza lutou pelos seus ideais e ensinou seus semelhantes a fazerem o mesmo. A partida é apenas uma marca física porque a sua história se tornou marca no coração de cada um.

De todas as declarações e mensagens amorosas e sensível em homenagem a essa grande potência que foi e segue sendo Elza Soares, afinal, segundo a tradição iorubá, só morre aquele que não é lembrado, Anelis Assumpção contou uma bonita história:

Elza foi acalanto a tantas mulheres que sofreram e sofrem violência doméstica. No vídeo de “Maria da Vila Matilde”, com mais de 2 milhões de visualizações no YouTube, há diversos comentários com relatos de mulheres das mais variadas idades que tomaram coragem a partir do que a letra da canção representava para elas. Foi e continuará um símbolo de doçura, como bem relatou Anelis, mas também de perseverança e resistência – por que quem foi que disse que essas coisas não caminham juntas? Elza nos provou que andam.

Arriscamos dizer até que, assim como fez e fará Anelis, todos os prêmios da música brasileira daqui pra frente de alguma forma atravessam e pertencem a Elza Soares.

Te agradecemos, Elza.

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Maria Angélicahttps://todosnegrosdomundo.com.br
Tenho 22 anos, sou nascida e criada no litoral, caiçara com muito orgulho. Além disso, também sou formada em Comunicação Social - Jornalismo. Sempre me encantei com o poder das palavras e por isso sinto que o jornalismo me escolheu, durante a minha breve trajetória profissional tive a oportunidade de contar histórias lindas e é o que pretendo continuar fazendo.
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