Opinião

Carla Vilhena, o racismo não permite diálogos

Carla Vilhena faz crítica ao filme “Corra”, desabafa nas redes sociais e critica falta de diálogo

Nesta semana, Carla Vilhena fez uma crítica negativa ao filme “Corra” em suas redes sociais. Depois da manifestação, a jornalista foi acusada de racismo e reagiu com uma thread no Twitter, explicando que o mundo polarizado em que vivemos nos afasta do diálogo.

De modo resumido, Carla declarou não ter gostado do filme pela dualidade e, principalmente, pela fácil resolução da violência com mais violência com que o racismo é abordado, conforme sua percepção, quando o protagonista precisa matar a família branca para sobreviver.

O discurso de Carla não é errado. Pelo contrário. No entanto, é romântico. Antes de trazer suas considerações, a jornalista lembra quanto tempo trabalhou na televisão brasileira e como estar ali era como uma vitrine. Do lado de dentro da notícia, tudo soa diferente mesmo.

Para jornalistas negros, por exemplo, em boa parte das vezes o desafio é não assimilar o termo “jovem” ao branco traficante preso com cocaínas aos montes e não assimilar o termo “traficante” ao jovem negro acusado de algo que ele não cometeu. Porque, no jornalismo branco, a inocência até que se prove o contrário é bastante seletiva.

Carla Vilhena não sabe o que o racismo reserva à população negra. Isso porque, durante uma carreira admirável, admito, ela não esteve preocupada em ouvir: “Dar voz a pessoas que não a têm sempre foi uma missão para mim”. O problema aqui é que as pessoas já têm voz. Elas só precisam ser ouvidas.

Que equívoco orgulhoso pensar que dar voz é o caminho quando se defende o diálogo. Se alguém defende a prática da compreensão, então, por que não entender o quão importante é ouvir em vez de dar voz? Se é o diálogo o caminho, por que não criticar uma colega jornalista negra com sensibilidade e respeito, sem qualquer necessidade de exposição nas redes sociais?

O discurso da jornalista já não me parece só romântico, visto que racismo algum aceita diálogo. Também me parece contraditório. Parece que dar voz às pessoas fez com que Carla não entendesse, do alto de sua vitrine, em que sociedade vivemos.

A família negra não tem chance de diálogo antes de ser atingida pelas 80 balas que saem dos fuzis da polícia. O consumidor negro não tem poder de diálogo com o segurança branco que o segue no shopping. A jornalista negra tem seu direito de diálogo retirado quando uma crítica dura de uma colega a coloca em cheque nas redes sociais. O trabalhador negro não tem chance de diálogo quando vai preso por um crime cometido em um lugar enquanto estava comprovadamente em outro.

E eu poderia escrever aos montes, mesmo longe de qualquer vitrine, tudo aquilo que não permite diálogo. Vivemos num país racista, Carla. O problema não é sua crítica ao filme. É sua romantização da violência que sofremos desde que nossos ancestrais atravessaram os mares em diáspora. O racismo não permite diálogos. E você só não sabe disso porque esteve preocupada em dar voz em vez de ouvir.

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