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quinta-feira, 27 janeiro 2022
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Tóquio, 1964: conheça Aída dos Santos

Conheça a história de Aída dos Santos, a única brasileira nas Olimpíadas de 1964 em Tóquio.

Minha madrinha costumava me dizer: “Thaís, você tem duas chances de ficar rica na vida: quando nasce e quando casa. A primeira você já perdeu.” Eu tô razoavelmente acostumada com isso. Mas duas situações me vem à cabeça de momentos em que eu queria poder sair gastando e jogando nota pro alto: quando o Emicida lançou uma coleção de relógios com a Chilli Beans e quando descobri que a Centauro tinha lançado a coleção “O Uniforme Que Nunca Existiu”, em homenagem à atleta Aída dos Santos.

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Aída dos Santos

Eu não conhecia Aída e sua história. Conhecê-la através do “Uniforme Que Nunca Existiu” foi uma mistura de sentimentos. Claro, foi uma jogada de marketing muito bem elaborada pela Centauro. Além de presenteá-la com o uniforme em si, a marca também produziu um pequeno filme com a história de Aída, narrado por ninguém menos que Sandra de Sá. Essa foi a parte bonita e emocionante.

Mas há também a presença do apagamento constante que violentamente acompanha com muita frequência as conquistas de pessoas negras no Brasil. Aída foi a única representante do Brasil nas Olimpíadas de Tóquio de 1964. Não te parece alguém que nós deveríamos conhecer?

A história de Aída

Em uma produção feita pelo Ministério da Cultura e pela Petrobras em parceria com a ESPN, Aída conta um pouco de sua trajetória e de como se tornou conhecida pelo salto em altura e se tornou a única participante brasileira nas Olimpíadas de 1964.

Com um envolvimento nos esportes a partir do vôlei, ela começou a acompanhar uma amiga que praticava salto em altura, até que começou a praticar e impressionar quem a assistia. Aída veio de uma família de baixa renda, por isso, além de enfrentar o julgamento de quem achava que ela, enquanto mulher negra, não deveria ocupar determinados espaços, também teve que ouvir do pai que não poderia seguir com sua carreira porque medalha não colocava comida na mesa.

Ainda assim, Aída persistiu e alcançou números que permitiram que ela fosse às Olimpíadas de Tóquio. A falta de estrutura e apoio em sua carreira eram tão grandes que Aída sequer tinha um uniforme para vestir para sua competição.

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Com uma falta de reconhecimento a ponto de não receber uniforme da delegação brasileira, Aída dos Santos foi a única mulher a participar das Olimpíadas de Tóqui em 1964 – e a única dentre todos os participantes a voltar com uma medalha. (Foto: Reprodução)

As Olimpíadas de 1964

Ao chegar em Tóquio, novos desafios se apresentavam. Sem técnico, Aída não sabia sequer como confirmar sua presença na competição. Foi aprendendo ao observar o comportamento de outras atletas e seus treinadores.

Dona de um talento até hoje tido como incomparável, entre os 61 homens que estiveram no Japão para representar o Brasil, Aída foi a única a voltar com uma medalha, superando obstáculos que vão do racismo e machismo às diferenças nos modos de saltos entre um país e outro.

Assim como a atleta Rafaela Silva, só após retornar ao Brasil carregando sua medalha é que Aída ganhou o reconhecimento do povo brasileiro.

De volta a Tóquio

48 anos depois, Aída retornou a Tóquio, mas em condições bastante diferentes. Da primeira vez, ela chegou sem apoio, sem técnico, sem uniforme, sem sequer ter seu nome na lista da delegação brasileira. Em 2012, ela foi acompanhada, para que sua voz fosse ouvida e ela falasse sobre sua experiência.

Ela conta que a experiência foi muito diferente: da primeira vez, ela era solteira, estudava, treinava, era jovem e não tinha filhos. Da segunda, tinha 75 anos, 3 filhos, netos e medos que antes não tinha. E se sentiu muito emocionada. A atleta diz ter sido um sonho. Mal sabia ela que outras emoções também a acompanhariam.

Em 2021, ano em que as Olimpíadas serão celebradas em Tóquio pela segunda vez, a Centauro a homenageia com a coleção “O Uniforme Que Nunca Existiu”. O sucesso foi tão grande que, quando os veículos de comunicação começaram a divulgar, os uniformes já não estavam mais disponíveis.

Mas, apesar de o meu “azar” de não ter nascido rica e do fato de eu não ter chegado a tempo no site, a Centauro vai produzir novas unidades e você pode entrar na fila por aqui. Quem pensou nesse uniforme, desde o número 22 (“da sorte”) ao ouro que Aída já deveria ter recebido desde 1964 foi Carol Barreto, criadora do ModAtivismo, e toda a receita seguirá para as ONGs do Projeto Transforma.

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Thais Senahttp://www.todosnegrosdomundo.com.br
Sou professora de inglês, formada em Comércio Exterior, estudante de Pedagogia na Universidade Federal de São Paulo e parte do grupo de Pesquisa Laroyê - Culturas Infantis e Pedagogias Descolonizadoras. Já atuei como professora voluntária e em projetos populares, fez formação em parceria com a Prefeitura de São Paulo e o Conselho Britânico e há 6 anos atua também na Ebony English, que ensina inglês com cultura negra.
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