Militância

Universitário negro é suspenso pela luta por cotas na Unicamp

As universidades no Brasil, públicas ou privadas, são constituídas quase da mesma realidade social: num espaço desigual, minorias constantemente buscam lutar a partir de grupos, como os coletivos ativistas, na promoção de um sistema mais democrático. As cotas, por exemplo, são uma maneira de equiparar os vários anos em que negros não tiveram acesso às políticas públicas e, portanto, permaneceram marginalizados física e socialmente. Ao contrário do que se pensa em muitos setores, essa não é uma prática que privilegia, mas que possibilita a equidade nos espaços de poder.

Tanto ingressar quanto permanecer numa universidade são difíceis tarefas. Em geral, aos poucos, o racismo institucionalizado é identificado e, num espaço majoritariamente branco, a forma de suportar as diferentes pressões, escancaradas ou omitidas, é através de luta. Foi assim que, provavelmente, Guilherme Montenegro, estudante da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) percebeu a necessidade de militar no espaço acadêmico.

Guilherme Montenegro escreve "quem luta pela educação não merece punição". Foto: Reprodução/Coletivo Domínio Público

Guilherme Montenegro escreve “quem luta pela educação não merece punição”. Foto: Reprodução/Coletivo Domínio Público

Montenegro disse ter percebido “o quanto é difícil estar em um ambiente onde nada do que se vê foi feito para você” e entendeu, então, que “não conseguiria, enxergando essa realidade, me calar diante de tanta injustiça”. Essas foram as palavras do jovem universitário num relato frente à perseguição racista que Guilherme passou a sofrer depois de reivindicar melhorias no espaço, principalmente em 2016, quando foi realizada a maior greve estudantil da instituição.

Com a ideia de que a universidade se tornaria mais democrática, com respeito às diferenças, foram organizadas três audiências públicas para discutir cotas, além de uma votação no conselho universitário para “escrever um novo capítulo da história da Unicamp”, conforme cita Montenegro em seu relato. Infelizmente, o estudante relata ainda que “essas conquistas ainda assim não refletem a posição da Reitoria da Unicamp diante desse enorme movimento.”

Depois das manifestações por um espaço igualitário, Guilherme foi notificado, em julho de 2016, da abertura de um processo disciplinar contra ele, devido à participação nas ações organizadas pelos grevistas. “Nesse processo fui julgado arbitrariamente por uma comissão abertamente contrária a greve, que foi escolhida a dedo pela reitoria para aplicar uma punição severa contra mim de dois semestres de suspensão ou dez horas de trabalho semanal na universidade”, declarou o estudante.

Quando um vídeo da ação que Guilherme participou durante a greve, o universitário negro foi vítima de ameaças de morte, insultos racistas, pedidos de expulsão e de cárcere. Portanto, agora, de todos os lados o estudante tem sido acuado, desde a universidade que estabelece a suspensão, até os internautas que cometem crime cibernético, com comentários que insistem em afirmar que tanto o estudante quanto o movimento que pede igualdade são fracassados, com outros posicionamentos abusivos e desrespeitosos, os quais nem é possível expor.

De acordo com o DCE (Diretório Central dos Estudantes da Unicamp), “a suspensão por 2 semestres do estudante negro, ativista e representante discente no CONSU Guilherme Montenegro, após exposição arbitrária na mídia e ameaças de agressão depois da greve de 2016, demonstra a disposição da reitoria para avançar nas perseguições políticas na Universidade e escancara a sua truculência institucional às portas da votação do projeto de Cotas”.

Infelizmente as políticas públicas conquistadas pelas minorias são deturpadas e atribuem a elas o status de privilégio. No entanto, ainda hoje, com as cotas, a inserção dos negros na universidade é falha, de forma que o espaço acadêmico permaneça seletivo e desigual. Quando a juventude se coloca para discutir essas questões e preencher lacunas, o racismo institucional, de maneira sutil, legitima as desigualdades no momento em que são proibidas ações para as cotas, por exemplo. Força, Guilherme Montenegro! Que os movimentos universitários tenham força, mas não só força, que sejam ouvidos!

 

 

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