Opinião

Morenas, não: somos negras!

Por Carol Lee

Edição: Solange Reis

Já ouviu falar de um movimento crescente nas cidades de todo o Brasil, que reúne mulheres marcantes, poderosas, estonteantes, daquelas que não passam despercebidas?

Não viu, nem ouviu? God! Saia do mundo Pokémom e desperte para caçar vidas de verdade! Os nomes podem variar, mas o objetivo em comum é sempre o mesmo: juntar gente bonita e resgatar a autoestima da mulher negra.

Reprodução: Campo Grande News

Mas, será possível? Sim, pois a soma de estética e desabafo é bombástica, ao dar voz para histórias e relatos de ataques racistas lamentáveis devido a sua cor, seu crespo e sua cultura. O que é fato comum para quase todas essas mulheres, é que a magia do movimento delas acontece, como num pacto de união de forças, em um coro de “tamo junto”!

E como ficam lindas as mulheres empoderadas, já reparou? Nessa vibe de festa celebration, essa moçada lembra de quem é, de onde vieram e para onde deverão seguir – está cumprido o objetivo, exaltando características e resgatando costumes de suas origens.

A pequena Rafena, 3 anos: linda com seu crespo! Foto: Fernando Antunes

Olhando de longe, até parece movimento de modinha, bailinho, balada…mas, de perto, vai além do normal: é evidente a seriedade que envolve a “festa”.  E pra sentir a pegada desses encontros, dá um play no link Marcha do Orgulho Crespo – SP – setembro/2015 e espia o que foi o encontro paulistano no ano passado e que, em 2016, aconteceu há poucos dias.

Não é difícil entrar no clima! E, aí, a nos perguntamos: onde foi que nos perdemos? O raciocínio para resposta é muito lógico – se onde vivemos, todos os holofotes são mirados exaustivamente a um determinado padrão estético, qual é a consequência nos cérebros de quem está fora daquele padrão bombardeado em todas as mídias?

Tão simples, quanto triste: se não temos o padrão disseminado como belo, nossos cérebros entendem que somos feios. Uma armadilha perigosa que dá origem a uma legião de mulheres machucadas, abduzidas, levadas a um transe na tentativa de aproximar-se dessa referência do belo.

Tem início uma verdadeira linha de produção industrial que alisa o cabelo e adota marcas e cores de maquiagem que não nos favorecem. Além disso, passamos fome para não ter curvas, vestimos roupas que nada tem a ver com nosso biotipo, entre outras tantas loucurinhas que nos submetemos pra nos “enquadrarmos” ao padrão caucasiano que impera na humanidade. Você conhece alguém que usa cremes que clareiam a pele? eu conheço…

E gente, vamos combinar, não é tão simples dar boot no cérebro e desprogramar aquilo que há séculos é massificado pra gente acreditar, não é mesmo?

Opa! Mas é aí que entra a força do sexteto fantástico da foto abaixo, que se conheceram pela internet em uma página de interesse comum das garotas: cabelos crespos e cacheados. Hoje, o grupo é uma das lideranças do exército de meninas empoderadas, movimentando-se Brasil afora, unidas pra virar esse JOGO! Vem que vem que vem com tudo, pra mostrar ao mundo e às próprias PRETAS que existe beleza negra, sim! Lindeza negra, princesas negras, majestade! Um lacre!

Da esquerda para a direita: Vanessa Pereira, Ângela Batista, Tay Pereira, Sara Arinos, Miriã e Juliana Dimas Foto: Marcos Ermínio

E como representante do TNM no 2º Encontro de Crespos e Cachos do MS, que aconteceu em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, no primeiro domingo deste mês, confesso ter ficado com receio de dar pinta por lá com os meus cabelos alisados (buááááá) e ser banida do encontro – que exagero meu – mas, afinal, a intenção do evento é virar esse jogo, não é mesmo? Lá fui eu, firme e forte!

E, para a minha surpresa, fui muito bem recebida! Juntas pudemos, de cara, concluir que os encontros não acontecem para impor padrões – ou, pelo menos, não devem – não querem angariar adeptas crespas a todo o custo, não querem que meninas alisadas arranquem suas progressivas para ter lugar na sociedade: pelo contrário!

Ali, pude entender que o objetivo do movimento é mostrar o quão belo podemos ser com as nossas próprias características somadas às nossas escolhas! O céu é o limite para, de fato, virar o holofote para nossa própria beleza, pois observando tanta gente bonita e percebendo todas as possibilidades e tamanho potencial de todos, começamos a reprogramar o cérebro do que é ser belo! Espia o movimento arrebentando no MS!

Anônimas e empoderadas Foto: Instagram -@leedutra0

Ao final, dá uma sensação de que, apesar dos pesares do preconceito velado ou descarado, sofridos quando adotamos nossas próprias características, vale a pena ser crespa,  encaracolada, rosa, loira,  morena,  trançada ou qualquer coisa que seja uma escolha SUA, e não uma versão caucasiana imposta por nossa sociedade preconceituosa.  A mim, foi dado o “recado”. Capitou? pega pra você!

Então, conclusão: encontros assim são lugares de ver gente bonita, gente descolada, gente exuberante, gente segura, gente empoderada, gente preta, “gente da gente” e não é pra perder, é pra se achar! Dá um Google para saber do próximo, com certeza já em ebulição, num lugar pertinho de você, e se joga!

 

 

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