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sexta-feira, 03 dezembro 2021
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Tyler Mitchell: “Não tenha medo de dizer não”

O fotógrafo diz que cabe à indústria da moda descobrir como ser mais inclusiva, não aos criadores negros.

Tyler Mitchell, que começou a carreira como cineasta, foi o primeiro fotógrafo negro a fazer a foto de capa da Vogue, em setembro de 2018, em seus 128 anos de história – para ninguém mais e ninguém menos que Beyoncé – e a imagem faz parte agora da coleção permanente da Galeria Nacional de Retratos do Smithsonian. Mitchell retorna à Vogue, desta vez como entrevistado, para falar de seus trabalhos e de como enxerga a indústria da moda.

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Em 2015, Mitchell lançou o livro El Paquete, sobre a cena do skate de Havana. Agora, lança o livro I Can Make You Feel Good [Posso Fazer Com Que Você Se Sinta Bem, em tradução livre], que tem o mesmo título de sua primeira exposição solo, em Amsterdã, e reúne ensaios feitos entre 2016 e 2019. Ele quer que seu trabalho seja “o farol de como esperamos que as vidas negras se pareçam.” 

Untitled (Boys of Walthamstow), 2018 (Foto: Tyler Mitchell)

Filho único, Mitchell se descreve sua infância como pensativa e reflexiva e que apreciava coisas como deitar em um campo verde com os amigos, coisas que já não são valorizadas hoje em dia, mas que são importantes para o fotógrafo, que diz amar a simplicidade. Sobre o livro, Mitchell diz: “Sem pensar muito, a imagem de capa foi uma linda representação [de corpos negros].” Ele diz ter entrado em contato com seu diretor de elenco, Holly Cullen, que encontrou um grupo de amigos e acrescenta: “Me lembro de sentir que a imagem de capa em especial era mágica.”

Mitchell diz que as imagens representam o companheirismo entre os amigos, mas também tem outras referências, como as chain gangs, que eram grupos de prisioneiros acorrentados que realizavam trabalhos punitivos, comuns principalmente nos estados do sul dos Estados Unidos. Ele acrescenta que a imagem é cheia de amor e que o grupo de amigos tem um papel importante em sua vida pessoal.

Ao ser questionado pela revista sobre como a indústria da moda pode enfrentar a inclusão efetivamente, Mitchell responde: “Isso é principalmente uma questão para a indústria resolver. Não cabe tanto aos criadores negros ensinar e guiar as pessoas. A inclusividade é sobre refletir verdadeiramente como o mundo é uma vez que você sai da bolha da moda”. O fotógrafo também aponta que trata-se de tornar a indústria mais inclusiva porque você genuinamente quer que seja assim.

A entrevista termina com Mitchell dando um recado para fotógrafos negros (mas que pode muito bem servir para outras áreas): “Não tenha medo de dizer não. Estamos sempre ouvindo que oportunidade só aparece uma vez: ‘aproveite a chance e não faça perguntas’. É assim que muitos artistas negros acabam assinando contratos ruins e como o sistema branco-supremacista continua a existir por conta de termos que não servem aos artistas. Faça mil perguntas e se sinta confortável em recusar. Sei que isso é difícil de ouvir porque às vezes aparecem oportunidades que nós parecemos precisar, mas não precisamos de nada que vai tirar vantagem de nossas experiências e não é benéfico para nós.”

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Thais Senahttp://www.todosnegrosdomundo.com.br
Sou professora de inglês, formada em Comércio Exterior, estudante de Pedagogia na Universidade Federal de São Paulo e parte do grupo de Pesquisa Laroyê - Culturas Infantis e Pedagogias Descolonizadoras. Já atuei como professora voluntária e em projetos populares, fez formação em parceria com a Prefeitura de São Paulo e o Conselho Britânico e há 6 anos atua também na Ebony English, que ensina inglês com cultura negra.
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