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quinta-feira, 27 janeiro 2022
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12 roteiristas e 1 segredo?

A partir dessa semana, o TNM lança mais um projeto, com roteiristas negros, para entreter você com diferentes tipos de histórias.

Mês da Consciência Negra. Também conhecido como Mês da Paciência Negra. Antes de falarmos sobre qualquer outro assunto que geralmente nos irrita sobre a Consciência Negra, queremos saber: quantos professores negros você já teve? Quantos médicos negros já te atenderam? E engenheiras negras, quantas você conhece? Quantas produções feitas por roteiristas negros você conhece?

Quem conseguiu passar o mês sem ser convidado por pessoas que geralmente estão cagando para a nossa existência para comparecer a lugares que nós nunca somos convidados a ocupar? A menos que você esteja muito bem protegido na sua bolha, também temos aqueles discursos do “Mês da Consciência Humana”, que o racismo está no próprio negro, que se a gente parar de falar sobre isso…

Da minha experiência à história dos roteiristas negros: calma, a gente vai chegar lá

Nosso objetivo aqui no TNM é servir de canal para trocar conhecimento e experiências. Inclusive, vou contar uma das experiências que me inspirou a escrever esse texto aqui. Certo dia, uma pessoa que sabe que eu sou professora na Ebony, que é uma escola de inglês com cultura negra, me convidou para dar uma palestra na empresa dela. Quando eu digo “dela”, entendam a empresa em que ela trabalhava. Infelizmente, a gente veste tão bem a camisa que é até pré-requisito em entrevista de emprego que a gente tenha “senso de dono” e saia dizendo por aí que a empresa é nossa, né? Enfim, no caso dela, não era.

Brooklyn Nine-Nine recomeça os roteiros do zero

Depois disso, foi uma sucessão de erros. Ela veio me dizer que achava muito bonito meu trabalho como professora na Ebony e que gostaria que eu fosse compartilhar minha experiência com as atividades filantrópicas da Ebony.

Não, não acaba aí. E eu juro que tem a ver com o título dos roteiristas negros…

1) Alguém fala pra advogados que o trabalho que eles realizam é muito bonito? Ser professor é um trabalho que exige muita dedicação, estudo e pesquisa. Tem outras formas de elogiar o trabalho de um professor, tá? 2) A Ebony não faz atividades filantrópicas. É uma empresa como outras cujos donos são pretos e cuja finalidade é ensinar pessoas que pagam por um serviço de qualidade. Tá tudo bem preto ter dinheiro pra pagar pelas coisas, tá? E 3) Ao questionar sobre o valor da palestra, ela me respondeu que, POR SE TRATAR DE UMA CAUSA VOLTADA À HUMANIDADE, A PALESTRA SERIA DE GRAÇA.

Eu vou falar de novo porque não sei se vocês entenderam: DE GRAÇA. Gente, só queria aproveitar aqui pra reforçar pra vocês que, ainda que vocês achem que o tempo de vocês não tem valor, se vocês aceitam esse tipo de oferta, vocês estão pagando por isso. Ou não tem custo de transporte? Pagar pra dar palestra em empresa de branco não dá, né?

Ah, agora sim, rs: os roteiristas negros

Foi pensando em todo esse contexto e na importância de a gente se celebrar e criar nossos próprios espaços ao invés de esperar que outras pessoas lembrem da gente que o Anderson Jesus, idealizador aqui do Portal, que não para quieto e tá sempre pensando em mil coisas, pensou em mais essa: e se a gente juntasse roteiristas negros para contar histórias negras? E, quando dizemos histórias negras, não estamos pensando em histórias sobre racismo. Porque nossa história vai muito além disso. Mas e se juntássemos esses roteiristas para contar nossas histórias? Escritas por nós, vividas por nós, protagonizadas por nós? E se fossem histórias que nos fizessem rir? Se fossem histórias que nos fizessem chorar? E que tal histórias pra gente se inspirar?

E aí?

Pois bem. O primeiro passo foi encontrar esses roteiristas. Mas, pra quem não sabe, o Anderson já tem uma produtora, a Iracema Rosa Filmes, então acho que essa parte não deu tanto trabalho assim pra ele. Mas, como ele mesmo diz que não dá ponto sem nó, daí pra frente, como diria Muricy Ramalho, foi trabalho, meu filho. Ele passou a se reunir com esses roteiristas quinzenalmente (quando não era toda semana) pra compartilhar ideias, projetos, visões… Até chegar nesse momento que a gente tá muito orgulhoso de anunciar pra vocês!

A partir dessa semana e toda semana daqui pra frente, nós teremos vídeos produzidos pelo próprio TNM por roteiristas pretos, com direção preta, atuação preta, edição preta, o verdadeiro entretenimento negro. Foi trabalho duro. Deu trabalho. Sabe aquela ideia lá que a Nubank meteu o louco dizendo que não tinha mão de obra preta qualificada? Pois é, nesse caso aqui, foi difícil achar atores brancos que quisessem atuar nos papeis de algumas dessas produções: o papel do opressor. Atores brancos, como não são marcados pelo que a Chimamanda define como o perigo da história única, estão acostumados a atuar em diferentes papeis: médicos, empresários, cineastas, traficantes, bombeiros, “herdeiros”, etc… Mas muitos ficaram receosos de que esse lugar de opressores tivesse uma repercussão negativa em suas carreiras. Ou seja, nem começamos e já estamos causando reflexão desde as gravações, não é mesmo?

Ah, falando nisso, o vídeo de estreia é… Pessoas Reais

A gente promete que os vídeos serão múltiplos e diversos. Mas esse aqui tinha que começar assim. Justamente porque nós precisamos afirmar nossa humanidade, nossa diversidade, nossa multiplicidade. Incluir diversidade não é colocar uma pessoa preta na sua empresa e nós sabemos bem disso.

Inclusive, Angela Davis diz: “Você simplesmente vai pedir àqueles que foram marginalizados ou subjulgados que entrem nestas instituições e participem do mesmo processo que precisamente os levou à marginalização? Diversidade e inclusão sem mudança real, sem mudança radical, não conquistam nada.”

Temos que pensar diversidade, temos que pensar individualidade também. É sobre Luedji Luna dizendo “Eu sou a minha própria embarcação. Sou minha própria sorte.” E é por isso que esse vídeo começa retratado uma situação bastante comum pra nós: o estereótipo de uma mulher preta. Qual é o lugar da mulher negra na sociedade?

O episódio é sobre uma mulher negra, atriz, que foi contratada para interpretar uma mãe com seu filho em um comercial de farinha. Acontece que o papel que ela esperava interpretar não é o mesmo que o contratante tinha em mente…

Os envolvidos nessas produções incríveis são: Pedro Caetano, a diretora, roteirista e produtora Rejane Neves, a inFLOWencer Luana Galdino, a atriz, bailarina, roteirista e professora Thaís Cabral, a roteirista e geógrafa Maria del Mar Valenzuela, a produtora executiva, diretora de arte e corte e assistente de direção Nidia Gabrielle, a stylist, figurinista, consultora de imagem e empreendedora Janaina Souza, a diretora, produtora e roteirista Ana Ferreira, o fotógrafo, locutor, sonoplasta e cat sitter Rubens Macedo.

O grupo, que ainda não tem nome e aceita sugestões, começou durante a quarentena imposta pela pandemia, aproveitou o isolamento para criar.

Thais Cabral


“Tem sido um prazer passar a quarentena muito junto só que separado dessa turma
massa de artistas criadores roteiristas pretos e pretas. O nosso grito a gente põe no
papel e transforma em arte. Colocar no ar tudo a nossa maneira: escrita, encenação,
atuação é a nossa maneira de resistir. Nosso bloco agora tá na rua. Espero que
gostem das nossas crônicas da vida (sur)real que vivemos. É cada uma que parece
duas. Qualquer semelhança com a realidade é a mais pura verdade. Afinal, quem
nunca né? Entendedores entenderão.”

Rejane Neves


” É gratificante fazer parte de um grupo com repertório plural e, ao mesmo tempo,
com vivências tão parecidas. É um espaço onde a produção criativa flui
verdadeiramente. Ao ouvir e ser ouvido nos dá confiança para gerar textos ricos e
poderosos.”

Pedro Caetano


“Poder dar voz e vida às nossas idéias, àquilo que nos atravessa e forma nossas
vivências e identidades junto àqueles que as compreendem, que as compartilham,
que trilham caminhos parecidos é algo realmente transformador e significativo.
Contar sua história do seu ponto de vista, quando essa foi rasurada e reescrita
através de um olhar oposto ao seu realmente não tem dinheiro que pague. É uma
honra, um presente e um manifesto.”

Luana Galdino


“Fazer parte do time que se dispõe a animar e documenrar em audiovisual nossas
perspectivas sobre a vida é um bálsamo pra um ano como 2020. Se é rir pra não

chorar e chorar pra não explodir, eu confio nas nossas narrativas, inclusive sou fã!
Papo de excelência!”
“Só quero avisar que além de voltar a escrever, estou voltando a atuar!”

Enfim, esperamos que você goste e compartilhe com a gente suas impressões, afinal, o portal se chama Todos os Negros do Mundo. E isso inclui você.

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Thais Senahttp://www.todosnegrosdomundo.com.br
Sou professora de inglês, formada em Comércio Exterior, estudante de Pedagogia na Universidade Federal de São Paulo e parte do grupo de Pesquisa Laroyê - Culturas Infantis e Pedagogias Descolonizadoras. Já atuei como professora voluntária e em projetos populares, fez formação em parceria com a Prefeitura de São Paulo e o Conselho Britânico e há 6 anos atua também na Ebony English, que ensina inglês com cultura negra.
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