Opinião

Relatos falsos denunciam agressão a brancos durante sessão de “Pantera Negra”

Nos últimos dias, “Pantera Negra” tem sido manchete pelo elenco majoritariamente negro e pelo sucesso de bilheteria, dentre outros aspectos positivos que tornam a produção inesquecível. No entanto, é claro que a parcela racista da população, bastante descontente com a inclusão da população negra e de sua história ancestral nas salas de cinema, transformaria o filme da Marvel em notícia negativa de alguma forma.

Não demorou muito para que, no Twitter, fossem publicadas fake news envolvendo o filme: usuários postaram fotos de mulheres agredidas – algumas com hematomas, outras até ensaguentadas -, com legendas de que teriam sido vítimas de agressão durante exibição de “Pantera Negra”, sob justificativa de que não poderiam assistir à produção por serem brancas.

Imagem: Reprodução

Imagem: Reprodução

No tweet acima, um usuário postou: ““Fui assistir à estreia de ‘Pantera Negra’ hoje e minha esposa foi agredida. Três mulheres negras chegaram perto de nós e uma disse ‘Esse filme não é para putas brancas’ e elas a atacaram. Seguranças nos acompanharam até o estacionamento e nós fomos embora. Nós simplesmente queríamos ver o filme”. A foto utilizada no tweet, no entanto, foi tirada anos atrás e a mulher retratada é ex-esposa de um funcionário da Casa Branca.

Até imagens de mulheres em vídeos sobre conscientização da violência doméstica que usavam maquiagem para figurar hematomas foram utilizadas e – o pior – muitos desses relatos falsos foram retweetados. Alguns usuários perceberam a fraude e passaram a denunciar em suas próprias contas. Logo, o Buzzfeed News desbancou as notícias mentirosas.

“Pantera Negra” representa uma vitória da população negra. Se ver retratado com atenção à ancestralidade incorporada à importância de negros e negras sobre as invenções tecnológicas, abrindo espaço ainda à crítica social refletida no vilão do enredo é gritar, ao mesmo tempo, em agradecimento por nossa história e em denúncia às violências as quais somos submetidos.

E justamente pelas violências sistêmicas que a população negra vive, não costuma agredir pessoas brancas que querem assistir “Pantera Negra”. Pelo contrário, nos assistam mais, nos ouçam mais, nos observem mais. Se atentem às nossas pautas.

Entendam esse filme além da jornada do herói. Identifiquem o contexto de um vilão tão próximo aos vilões da vida real que, em boa parte, são negros – não porque negros são bandidos, mas – cuidado, contém spoiler – porque assim como Erik Killmonge, são submetidos a maiores violências: desde a morte do ente querido à privação de ver o pôr do sol mais bonito do mundo. E ambas situações culminam muitas vezes em, bem como ele, preferir a morte do que a prisão.

Nessa perspectiva, reconhecer a desigualdade racial é uma opção à população branca e esperamos que ela entenda seus privilégios, sempre com recorte ao gênero, à sexualidade, à condição social, geográfica, dentre outros tantos aspectos. No entanto, os brancos dessa geração não são culpados pelos atos das gerações passadas, embora possam aliviar as consequências das ações.

Aliás – cuidado, contém spoiler -, não é isso que o rei T’Challa ensina após a morte de seu primo, quando constrói um centro para melhor a vida de pessoas como ele?

 

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Amanda Sthephanie

Preta. Pobre. Poeta. Periférica. Prounista. Filha de Oxum, tem paixão pela palavra e estuda o último ano de Jornalismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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