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sexta-feira, 03 abril 2020
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Quem tem orgulho de Djamila Ribeiro?

Camila Pitanga e Djamila Ribeiro durante o evento de lançamento do livro Quem Tem Medo do Feminismo Negro?

Ainda estou em êxtase. Participei de um dia histórico. O lançamento do livro Quem tem medo do feminismo negro? da filósofa Djamila Ribeiro representa um marco não só para as mulheres negras, muito bem representadas por ela, mas também para toda a população brasileira. Como disse a filósofa estadunidense Angela Davis, “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”. Djamila se movimenta, ataca, ginga e defende como num jogo de capoeira. Enquanto pensam que ela está jogando, na verdade está trabalhando pela melhora da sociedade. Mulheres negras pensando uma nova sociedade.

Nós negros, há pouquíssimo tempo não eram permitidos de falar, escrever ou sequer publicar nossas vivências. Sempre tivemos nossas histórias contadas por intermediários que acrescentaram inverdades, esconderam nossas glórias e roubaram nossa autoestima. Nos colocaram em segundo plano na narrativa em que éramos protagonistas. Até Machado de Assis foi embranquecido para dar tom verídico ao aniquilamento da intelectualidade negra. Dentro deste cenário, assistir uma mulher negra lançar um livro falando de outras mulheres negras e levar multidões ao evento de lançamento me faz, ao mínimo, ter um sentimento de gratidão a todas as mulheres que morreram para que nós estivéssemos onde estamos.

O evento de lançamento da última segunda-feira (25/7) aconteceu na Casa Natura Musical em São Paulo. Xênia França abriu os trabalhos com um show do seu primeiro disco solo, pra mim, o disco do ano. Em seguida uma breve fala política com dois pré-candidatos negros das próximas eleições, Erica Malunguinho e Douglas Belchior. O Babalorixá Pai Rodney abençoou os caminhos ,numa segunda de Exu, permitindo que Djamila Ribeiro tomasse o palco e fosse entrevistada por Camila Pitanga. Bem mais conversa do que entrevista, bem mas intimista e divertida. Nenhum barulho ou fala paralela enquanto as duas contavam um pouco de suas histórias. Olhares atentos, sedentos por aprender os ensinamentos sobre o feminismo. Quem tem medo do feminismo negro? é a segunda publicação da filósofa. Uma coletânea de texto publicados em sua coluna na Carta Capital, precedidos de um ensaio autobiográfico de emocionar muitos e deixar outros tantos incomodados enquanto sentam encima seus privilégios. Seu primeiro livro O que é lugar de fala? entrou pra lista dos livros mais vendidos do país e levou multidões nos eventos de lançamento promovidos em diversas cidades do Brasil.

Quando conheci Djamila, tive a oportunidade de dizer como era grande a minha gratidão por ela ocupar este espaço de representatividade. Eu fui salva pelo feminismo negro e quem me apresentou a maioria das minhas salvadoras foi Djamila. Foi com ela que eu conheci Toni Morison, Alice Walker e bell hooks.  Foi com ela que aprendi que não conseguimos nada sozinhas e que eu não precisava interiorizar a negra guerreira e lutadora. Me colocar neste lugar era uma violência comigo mesma, eu só precisava ser humana. Por essas e muitas outras que eu tenho orgulho de Djamila Ribeiro. Cada vez que a vejo ocupando espaços que não foram construídos pra nós, cada vez que a vejo sentada nos sofás da rede globo de televisão eu tenho certeza de que outras mulheres serão salvas pelas palavras dela.

Quem sabe em breve não consigo um tempinho com a Djamila para gravarmos um programa no estúdio TNM e conversar sobre o livro e sobre a nossa história que em muitos momentos se cruzam e contam as mesmas emoções, as mesmas conquistas, as mesmas renuncias.

Quem Tem Medo do Feminismo Negro?, de Djamila Ribeiro. Companhia das Letras, 152 págs., R$ 29,90.

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