Opinião

Quando a favela virou moda para quem vive nos condomínios?

Convenceram a favela de que melhor era ser chamada de comunidade. Logo esqueceram o verdadeiro significado de favela – Cnidoscolus quercifolius -, a planta que dava flores brancas e por habitar grandes morros deu nome a eles. Com o passar do tempo, timidamente, colocaram a favela na moda de formas que jamais se imaginaria: de tema festivo no Big Brother Brasil 2018, na referência ao baile, até espaço especial no Rock In Rio 2019, com palco para talentos da arte e culinárias das comunidades cariocas.

De acordo com “O Globo”, a memória do tiroteio que acontecia na Rocinha em setembro do ano passado, ao mesmo tempo em que o Rock in Rio acontecia, inspirou o empresário Roberto Medina a criar um palco inspirado nos morros cariocas. Neste ano, o evento deve acontecer entre os dias 4 e 13 de outubro, com atrações mais que especiais: os favelados.

Também ao “O Globo”, Zé Ricardo, o curador artístico do espaço favela que insistem ser inclusão social, fez questão de declarar que o evento não terá nada de assistencialista. Muito pelo contrário: querem “acabar com os estereótipos da favela” e, portanto, lembra que lá também tem orquestra, banda de rock e de MPB e bailarina clássica. E não é que ele conseguiu “quebrar” um estereótipo construindo outro?

A matéria é finalizada ainda com uma fala de Medina, novamente. Declaração infeliz em que o organizador busca atribuir caráter aos favelados e relacionar a isso a importância do seu evento inclusivo que segundo ele já é acessível devido à possibilidade de parcelar em várias vezes o valor.
— Quase todos na favela são do bem e eles estão sofrendo bem mais do que nós.

Representar a favela da maneira com a maneira caricata com que o BBB fez e o Rock in Rio pretende é desrespeitoso. A afirmação de que quase todos na favela são do bem carrega muito mais preconceitos do que inclui socialmente. Se a ideia é trazer esperança e oportunidades a quem vive nos morros, que isso não seja feito sobre a perspectiva de um dos mais famosos, ricos e influentes publicitários do Brasil e, sim, da própria favela.

Antes de qualquer coisa, que não tirem da favela o direito de se chamar pelo nome da flor, simplesmente para que depois ela seja capitalizada e vendida como alegoria. Favela é diversa, criativa, artística porque precisa se reinventar e resistir. Os morros do Rio de Janeiro, sobretudo, precisam criar caminhos em que desviem das balas – que podem vir de diferentes revólveres. Se a favela é o que é, isso se deve principalmente à luta pela sobrevivência.

Inclusão seria realizar o Rock in Favela. Esperar que desçam o morro é muito fácil, difícil é subir até lá e ver de cima a cidade maravilhosa. Isso vale para as favelas e periferias de todo o Brasil. E que não atribuam a essa construção ainda mais estereótipos do que já foram estabelecidos: que das favelas, as bailarinas sejam regadas, o rock seja alimento, o samba seja sol, o hip hop faça fotossíntese, a MPB faça florescer e o funk faça semear.

Reconhecer as manifestações que surgem nos espaços marginalizados é a maior forma de quebrar estereótipos. Principalmente quando eles se tornam moda a ponto do morro – onde eles nasceram – não mais reconhecer que ali está sua origem. São expressões que perfuram feito bala mas acariciam feito folhas de favela: são o samba, o hip hop, o funk e tantos outros que nasceram conosco e partiram para conquistar o mundo.

Ser favelado não é moda, é resistência.

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