Música

Por que só a voadora chama a atenção?

Na última segunda-feira (20), foi lançado no YouTube o clipe “A Música da Mãe”, do rapper Djonga. Em menos de 24 horas no ar, a produção alcançou o primeiro lugar de vídeos recomendados do YouTube e teve grande repercussão também em outras redes sociais.

O vídeo se inicia com um rapper branco cantando e várias personagens negras – secundárias atrás dele -, como quem trás beleza e legitimidade ao discurso realizado pelo menino de pele clara. Não demora muito para que ele leve uma voadora. Isso mesmo: Djonga dá uma voadora no rapaz branco e ocupa o seu lugar como rapper no clipe.

Nos últimos meses, o rap nacional observou muitos discursos equivocados sobre racismo e até racismo reverso dentro de rimas conhecidas de quem faz muito sucesso, inclusive mais do que alguns artistas negros. Os primeiros minutos de Djonga só podem ser uma crítica ao que o rap observava calado dentro de seu próprio movimento e resolveu reagir.

Apesar de todo o peso simbólico, essa cena gerou polêmica, inclusive entre fãs brancos do artista que declararam nas redes sociais que nem todo branco é racista ou que aquela era uma forma de propagar violência.

Esses mesmos usuários não criticaram quando um homem negro é espancado ou quando uma mulher é violentamente agredida nesse mesmo clipe. A representação da denúncia sobre os rumos que o rap nacional toma no flow de quem não respeita a cultura marginalizada do hip hop tem mais impacto – negativo – sobre o público do que a representação da violência contra a mulher e contra o negro.

A seletividade existe sobre a denúncia das violências. As pessoas escolhem a qual denúncia dar voz e preferem reforçar o mesmo discurso equivocado de racismo reverso que outros nomes do rap – se é que assim podemos dizer – têm em seus trabalhos.

Quando um homem negro tenta representar a sua briga pela ocupação de espaços e denunciar acontecimentos do rap é tido como violento. Quando na verdade, essa voadora inverte papéis. São os artistas negros do rap – principalmente as artistas -, que têm pouca visibilidade comparado a quem grita por liberdade dizendo não ter culpa da escravidão por apenas ser branca, os que recebem essa voadora a cada apoio ou patrocínio que perdem para quem carrega consigo a pele branca.

Essa também é uma voadora dada pelo sistema: encarceramento, genocídio da juventude, violência policial. É o negro a maior vítima das agressões e o rap tá aí como defesa pessoal, na voz e nos olhos. Por mais clipes como esse – e fogo nos racistas.

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