fbpx
19.5 C
São Paulo
quinta-feira, 30 junho 2022
HomeAgendaPeça que denuncia o genocídio negro circula por cidades de São Paulo

Peça que denuncia o genocídio negro circula por cidades de São Paulo

‘Buraquinhos ou Vento é Inimigo do Picumã’, de Jhonny Salaberg, mescla realismo fantástico, ludicidade e denúncia. Espetáculo circula gratuitamente por São Paulo.

Cena do espetáculo ‘Buraquinhos ou Vento é Inimigo do Picumã’. (Foto: Divulgação)

Vista por mais de sete mil pessoas pelas temporadas e festivais pelas quais passou em diversas cidades do Brasil, a peça ‘Buraquinhos ou Vento é Inimigo do Picumã’ denuncia o genocídio negro por forças do estado a partir da história de um garoto, nascido e criado em Guaianases – zona leste de São Paulo. A montagem foi uma das escolhidas na IV Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicos do Centro Cultural São Paulo (CCSP), em 2017, e o dramaturgo Jhonny Salaberg foi o primeiro negro a ser contemplado.

Salaberg também integra o elenco ao lado de Ailton Barros e Clayton Nascimento. A montagem tem direção de Naruna Costa e circula gratuitamente a partir de 14 de março pelas cidades de Taboão da Serra, Santos, Cubatão, Suzano, Guarulhos e Osasco.

Sobre o espetáculo:

Narrado em primeira pessoa, o espetáculo traz um menino negro que vai a padaria no primeiro dia do ano. No caminho ele leva um “enquadro” de um policial. A partir daí, o jovem começa a correr e não para mais. Isto o leva a uma maratona pelo mundo, passando por países da América Latina e África.

Ao longo de seu caminho o jovem é atingido por 111 tiros que são disparados pelo policial que o persegue. A cena e o número remetem, respectivamente, aos cinco jovens fuzilados em Costa Barros, subúrbio do Rio de Janeiro, em 2015, e aos 111 mortos no massacre do Carandiru, em 1992. No trajeto várias personagens, arquétipos sociais, o ajudam a construir a história. O realismo fantástico do texto de Jhonny Salaberg mostra um jovem com o corpo cheio de buracos. O real não importa mais, agora ele precisa descobrir outras formas de sobrevivência.

Para o dramaturgo, diante de um caos social é preciso reinventar a vida. “É uma espécie de videogame, uma visão meio cinematográfica, ele cria asas, sobe no poste, anda nas nuvens, pula entre os fios de eletricidade, desce um córrego e sai em outro país. Não é possível em nossa existência um menino correr o mundo todo levando 111 tiros, todo esburacado, mas no texto é possível”, explica Salaberg.

Convidada por Salaberg para dirigir o espetáculo, a multiartista Naruna Costa, que além de atriz e diretora é também cantora, compositora e, atualmente, a protagonista da série brasileira Irmandade na Netflix, aceitou o desafio.Naruna, que tem uma longa trajetória no teatro e na negritude, é uma das fundadoras e integrantes do grupo ‘Clariô’, um dos mais importantes na pesquisa teatral negra do país. Para ela, ‘Buraquinhos ou Vento é Inimigo do Picumã’ traz muitas possibilidades independente do espaço de cena.

“Passear com o trabalho foi muito importante porque pudemos ver muitas possibilidades. Entendemos que dá para fazer o espetáculo de formas diferentes, de maneiras reduzidas e em espaços maiores.”, esclarece Naruna.

Na construção do texto em 2016, Salaberg revela que o intuito inicial era denunciar o genocídio da população negra pelo realismo fantástico e pela ludicidade, mas após as temporadas realizadas a obra tem se atualizado.

“Nesse um ano e seis meses de apresentações as coisas não pararam de acontecer, infelizmente. Os assassinatos a queima roupa não cessaram e a estatística de mortes negras a cada 23 minutos segue descontrolada.”, relata.

Segundo o autor o espetáculo se torna vivo por si só e “é alimentado pelo caos que é projetado pelo genocídio do corpo negro neste país. Marcus Vinícius, Agatha, Marielle, João Victor, Cláudia, Rafael, se tornam matéria morta nas ruas e viva na cena. As questões sobrevoam o teatro e pousam como a pergunta de Marcos Vinícius a sua mãe ao ser baleado pela polícia no Rio de Janeiro: Ele não viu que eu estava com o uniforme da escola mãe?”, completa.

Para a diretora, o público se emociona muito com todas essas questões e é importante ter a proximidade com a plateia, mas com um certo distanciamento para não prejudicar o andamento.

“Buraquinhos tem essa característica de estar perto da plateia, mas não tão perto. Precisamos de espaço para ver e refletir sobre o que está sendo dito, para ele não ficar impositivo. Na relação com o público nós amadurecemos bastante cenicamente. Entendemos que o espetáculo tem uma linha muito tênue entre virar um melodrama e um comentário sobre o assassinato desta criança. As temporadas que fizemos trouxeram essa reflexão”, explica Naruna.

Além do Centro Cultural São Paulo o espetáculo já se apresentou em diversos palcos da capital paulista como o Teatro de Contêiner, a SP Escola de Teatro, o Teatro Cacilda Becker, a Casa de Cultura da Vila Guilherme e o Itaú Cultural, local onde foi convidado para duas temporadas devido a lotação do espaço.

Em festivais foi convidado para o FIT – Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto – SP, o Festival Isnard Azevedo em Florianópolis – SC, o Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo – SP, o Fentepira – Festival Nacional de Teatro de Piracicaba – SP e o Feste – Festival Nacional de Teatro de Pindamonhangaba – SP e o Fentepp – Festival Nacional de Teatro de Presidente Prudente – SP. Também participou da Virada Cultural em São Paulo com apresentações no Sesc Ipiranga.

Além da premiação da APCA e de ter sido um dos textos vencedores da IV Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicos do CCSP, a montagem foi considerada a Melhor Peça pelo jornal Folha de S. Paulo em 2018, recebeu o prêmio de Melhor Direção pelo Aplauso Brasil, Melhor Dramaturgia e Melhor Projeto pelo blog Miguel Arcanjo Prado da UOL em 2019 e indicações de Melhor Dramaturgia pela APCA e Melhor Elenco pelo Aplauso Brasil em 2018.

O texto do espetáculo foi publicado pela Coleção Dramaturgia da Editora Cobogó – RJ em 2018 e pela Funarte em 2019 na coletânea Dramaturgia Negra, a primeira antologia de dramaturgia negra do Brasil.

A circulação do espetáculo foi contemplada pelo Programa de Ação Cultural do estado de São Paulo – PROAC.

Serviço:

Espetáculo: ‘Buraquinhos ou Vento é Inimigo do Picumã’
Circulação PROAC de 14 de março à 8 de maio

Taboão da Serra | Espaço Clariô
Datas: 14 e 15 de março
Horário: 20h
Local: Espaço Clariô
Endereço: R. Santa Luzia, 96 – Vila Santa Luzia, Taboão da Serra
Lotação: 80 lugares

Santos | Teatro Guarany
Datas: 27 e 28 de março
Horário: 20h
Local: Teatro Guarany
Endereço: Praça dos Andradas, 100 – Centro, Santos – SP
Lotação: 270 lugares

Cubatão | Teatro Do Kaos
Datas: 8 e 9 de abril
Horário: 20h
Local: Teatro do Kaos
Endereço: Praça Joaquim Montenegro, n°34 – Largo do Sapo, Cubatão – SP
Lotação: 140 lugares

Suzano | Teatro Contadores De Mentira
Datas: 2 e 3 de maio
Horário: 20h
Local: Teatro Contadores de Mentira
Endereço: R. Maj. Pinheiro Fróes, 530 – Parque Maria Helena, Suzano – SP
Lotação: 80

Guarulhos e Osasco
As datas de Guarulhos e Osasco estão em processo de fechamento para os meses de abril e maio.

Compartilhe

- Advertisment -
- Advertisment -

MAIS LIDAS

COMENTÁRIOS RECENTES