Opinião

Não vai, malandra: Anitta precisa de limites

Durante as eleições, Anitta foi muito criticada pela postura de não assumir lado nenhum, numa época onde escolher uma perspectiva é não somente um ato político, mas de respeito, principalmente quando uma comunidade é ameaçada por autoridades do governo.

Ainda antes disso, houve uma discussão sobre a identidade racial da cantora, com base em suas fotos antigas. Parece mesmo que a malandra identificou essa discussão e passou a usar laces de cabelos crespos em seus clipes com referência à cultura marginalizada. Nos clipes mundiais, na maioria das vezes, os mesmos cabelos lisos e escorridos.

Com a carreira em ascensão, Anitta fez por bem levar o funk – e a favela – por todo o mundo. E recentemente fez isso a partir do clipe gravado numa comunidade, com parte da letra em inglês, idioma ao qual boa parte da população geograficamente marginalizada não tem acesso. Tudo bem que o mundo entenda a favela, mas não a favela entenda o mundo.

Mesmo assim, a cantora continuou sendo a grande artista que é – e isso não está em questão aqui. Poucos olhares críticos para alguém que alcançou em relativamente pouco tempo o tão difícil e sonhado reconhecimento internacional.

No carnaval deste ano, Anitta precisava dar mais um show. Tudo para tirar as dúvidas de quem apenas achava que a artista precisava repensar as identidades com as quais lucra. De cima do trio, a artista disse ter avistado um “ladrãozinho”, dando sermão sobre ter nascido pobre e estar ralando.

Apontado como ladrão, o homem negro foi levado à delegacia e liberado por falta de provas: nada foi encontrado com ele e aparentemente nenhuma testemunha o reconheceu ou denunciou. Agora correm pelas redes sociais manchetes que levam sua foto e que o chamam de ladrão e não de suspeito ou, menos ainda, de inocente.

Anitta precisa entender que não adianta levar ao mundo a cultura marginalizada e ignorar questões raciais que a compõem. Mais do que isso, não tem direito de expor alguém inocente pelo puro prazer em dizer que ralou para chegar lá.

O sucesso de alguém não pode ser pautado em lucrar com as vulnerabilidades dos outros e sequer reconhecer discussões que os afetam. O racismo é inaceitável e não importa se a racista faz carreira internacional.

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