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terça-feira, 03 outubro 2023
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Linguagem Sem Gênero promove Comunicação Inclusiva

Também conhecida como Linguagem Não Binária ou Linguagem Neutra de Gênero, a proposta desestabiliza os padrões cultos da Língua Portuguesa e seu uso visa trazer mais inclusão, representação e respeito à identidade de cada pessoa

Como devemos nos referir a uma pessoa que se revela com uma identidade de gênero diferente? Quais tipos de Substantivos (Menino, Menina…), pronomes pessoais (Ele, Ela…) ou pronomes de tratamentos (Senhor, Senhora…) mais adequados deve-se usar nestes casos?
Esta não é uma dúvida que é só do falante não. É uma dúvida também por parte de quem ouve, ou seja, de quem recebe o tratamento.

Ultimamente tem acontecido um movimento que, principalmente, tem se culminado nas redes sociais: Linguagem Não Binária, ou simplesmente, Linguagem Neutra de Gênero. Cada vez mais as pessoas estão se identificando por pronomes pelos quais preferem ser tratados, quebrando as famosas “regras” ditadas pela norma padrão da Língua Portuguesa.

Mas como assim?

A Linguagem neutra chega como tentativa de trazer mais diversidade e inclusão dentro do sistema da língua, indo na contramão do que a Norma Culta da Língua Portuguesa prega: de que a utilização do Masculino é tida como marcador neutro. É o caso do vocábulo “Todos” por exemplo. Pode ter 10 pessoas dentro de uma sala, sendo 9 meninas e 1 menino, mas o pronome a ser utilizado em caso de cumprimento, por exemplo, seria “bom dia…/ boa tarde…./ boa noite a TODOS”.

A Linguagem não binária apresenta algumas possibilidades de integração do pronome neutro junto pronomes masculino e feminino, tais como “Ela/dela”, “Ele/dele”, “Elu/delu”, “Ile/dile. Neste caso, o “a” e “o” no final dos pronomes são substituídos por “u”, e, ao invés de dizer “ele” ou “ela”, diz-se “elu”. Em “dele” ou “dela”, utilize-se “delu”.

Em palavras terminadas em “a” ou “o”, a substituição é pelo “e”, como em “linde”, “tranquile”, “namorade”, “amigue”. Em palavras em que o “e” sinaliza o masculino, utiliza-se o “ie”, como por exemplo, “professories”. Essas são apenas algumas das combinações possíveis dentro do sistema da língua. Outros, como o “ILE/DILE” também são utilizados.

Mas por que tais mudanças?

Normalmente, nos estudos da língua, os gêneros feminino e masculino costumam ser os únicos sobre os quais aprendemos e somos estimulados a usá-los em sociedade.

Ocorre que grupos, em sua maioria pertencentes às comunidades LGBTQIAP+ (tais como pessoas de gênero fluido, intersexo, agênero, ou simplesmente qualquer pessoa), não se sentem contemplados, ou melhor, não tem a sensação de pertencimento dentro da língua, e mostram que há outras existências possíveis para além do binário homem e mulher, feminino e masculino. É o caso de Antônio Samuel, mas que prefere ser chamado de Sasosbi, jovem que se identifica de gênero fluido e que às vezes se enquadra no gênero masculino, às vezes se enquadra no gênero feminino e às vezes se enquadra no gênero neutro e às vezes não se enquadra em nenhum aspecto de gênero. “Como às vezes eu não sei em qual gênero eu estou, porque a mudança é gradual, é como se eu tentasse passar do quente para o frio, e toda essa mudança gradual, eu não vou sabendo em qual gênero eu estou até está 100% alinhado com ele. Então eu sempre uso uma linguagem sem gênero”.

Indra, Travesti com identidade Trans, utiliza tanto a linguagem neutra em seu dia a dia que está até escrevendo um livro de uma viagem que fez a Índia em 2018 todo em linguagem neutra. “Além de eu ter amigues não-bináries e acreditar demais que se em um lugar uma pessoa reivindica por uma mudança, a mesma deve ser respeitada”, afirma Indra.

Já Cup, pessoa de gênero assexual, procura utilizar em suas redes sociais o pronome neutro para se comunicar com a sua audiência. “Nas minhas redes volta e meia eu pauto esse assunto. Como eu tenho contato com pessoas não-binárias que me seguem, eu procuro usar o neutro para não impor gênero. Assim como posso vir a se referir a mim mesme assim também. Apesar disse eu, particularmente, vou por qualquer pronome”, conta.

O movimento pela neutralização da linguagem não está acontecendo apenas no Brasil não. Em países como Portugal, Suécia, Argentina, Estados Unidos e Canadá, já existe mobilidade em rumo à institucionalização e legitimação da linguagem em seus territórios.

Para Kelly Couto, especialista em Linguagem e Comunicação e fundadora da Revista Capital Econômico, este movimento não é uma tentativa de imposição às mudanças na norma cultas da Língua Portuguesa, mas de reorganização. “É importante frisar que quando nascemos, aprendemos primeiro a falar e não, a escrever. A norma culta da Língua Portuguesa surgiu posteriormente como processo de organização da fala. E, pelo fato de a língua ser um fenômeno e sofrer mutações, e somos agentes (atores principais) deste fenômeno, precisamos acompanhar suas transformações. A língua é um processo que faz parte do processo humano, da comunicação…. e a discussão aqui está longe de ser uma exigência de reformular a Língua Portuguesa, mas de gerar mais inclusão dentro do sistema da língua. A Linguística defende sempre que o mais importante é que haja comunicação entre os falantes”, afirma Couto, lembrando que em língua latina o processo de mudança pode ser ainda mais complexo do que se imagina.

Thiago Peniche, fundador do curso Es(trans)geiros, acompanha de perto o quanto é necessário ouvir este grupo que não se sente pertencido dentro da sociedade por conta da comunicação. O curso, que é um projeto social que dá aulas de inglês e teatro gratuitamente ou com bolsas de até 100% para pessoas trans, já promove mais inclusão na língua: “Temos muito mais alunos trans do que cis, e nossa posição é abertamente à favor da linguagem neutra. Temos muitos alunos trans não-binários que se sentem melhor com pronomes neutros, e não os respeitar seria negar a Educação a essas pessoas”, afirma Thiago. “Professores e alunes são instruídes a respeitar a todes”. Completa.

Sobre Kelly Couto
Tendo cursado toda a sua educação em escola pública, a empreendedora já fez quase de tudo um pouco na vida: vendeu amendoim na praia, foi empregada doméstica e babá, vendedora de porta em porta até chegar à operadora de telemarketing, onde atuou por mais de 10 anos, tendo começado como atendente, passando por a área de vendas e liderança. Graças ao trabalho como operadora de telemarketing e no ramo da beleza e da estética, além de iniciativas pública e privadas para a área da educação, ONGs e Programas de Inclusão aos Negros, Kelly conseguiu entrar para a faculdade.
Hoje formada em Letras pela Universidade Castelo Branco (UCB) e Pós-Graduada em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense do Rio de Janeiro (UFRRJ) – com ênfase em Linguística Textual e Análise de Discurso, Kelly Couto tem mais de 15 anos de experiência na área comercial, no mercado de telecomunicações tendo passagem por call centers de grandes players de telefonia e bancos. Desde 2013, atua com Marketing Digital e Jornalismo Independente. É Fundadora da Revista Capital Econômico – publicação digital especializada em Economia, Negócios e Carreiras, com visibilidade mundial.

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