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sábado, 27 novembro 2021
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Cidinha da Silva – A africanidade e o espírito libertário de Alzira, vivos em nós

A africanidade e o espírito libertário de Alzira, vivos em nós

Por Cidinha da Silva

 

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A narrativa do romance de estreia de Goli Guerreiro, Alzira está morta, premiado no concurso João Ubaldo Ribeiro, tem três aspectos centrais: é informativa, transatlântica (conceito de Beatriz Nascimento) e bela.

A informação fundamentada na pesquisa e na escrevivência (conceito de Conceição Evaristo) da autora, e o trânsito pela África Ocidental e pela Diáspora Negra cobrem 80 anos da história cultural de Salvador, povoam o livro desde a primeira página. A beleza, entretanto, cresce à medida que a antropóloga cede lugar à escritora.

A autora está na contramão da vasta pesquisa de Regina Dalcastagné sobre o romance brasileiro (1990-2004). Os resultados destacam a autoria de homens brancos e heterossexuais, entre 30 e 40 anos e residentes no Sudeste do país. Personagens centrais homens, escritores ou jornalistas, imersos em dilemas existenciais da classe média.

Goli Guerreiro é mulher, lésbica, entrou há pouco na casa dos 50. É soteropolitana e vive em Salvador. Em comum com os autores recenseados por Dalcastagné, apenas o pertencimento racial.

A leitura do livro, entretanto, nos mostrará que a autora branca não esbarra em estereótipos e questões éticas. Ao contrário, percebe-se a tensão racial na postura de Alzira na relação com as personagens brancas e a presença crítica (e irônica) da autora. À página 191, por exemplo, Alzira, desconfiada, recebe uma pesquisadora e temos o seguinte: (Alzira) Preferia que você fosse negra. (Lucila) Eu também – disse a moça, encarando-a com discreto sorriso.

Alzira é arquétipo de múltiplas mulheres libertárias que inspiraram a autora: Lélia Gonzales, Zora Hurston, Dete do Ilê Ayê, Arany Santana, entre outras. Transgressora, como todas as Iabás, como filha de Ewá. Faz a primeira viagem a Lagos, Nigéria, na década de 1930, para cumprir um desejo da mãe e quem sabe lhe dar netos legitimamente nagôs.

A autora prefere chamar as partes do livro de frames, ao invés de capítulos. Acrescentaria que Alzira mesma é um frame, uma borda firme e bem delineada que nos permite vislumbrar as águas do Atlântico e por elas navegar com o apoio do arco-íris como caleidoscópio de vozes, texturas, sabores, imagens, tranças econômicas e conhecimento tecnológico transatlântico.

As imagens de Alzira em diversas faixas etárias, de seus pais, das paisagens urbanas visitadas, dos artefatos e fotografias, bem como os textos de contextualização histórico-cultural no início de cada frame, são marcas significativas de uma narrativa ágil e convidativa. Porém, algumas passagens mereceriam mais literatura e menos antropologia.

Alzira está morta é amálgama de africanidades, espírito libertário e protagonista de mulheres pouco ouvidas e compreendidas em sua complexidade na História, mas que existiram. Existem. São nossas preciosas ancestrais reveladas pela singular Alzira.

 

 

 

11072653_631558113641256_5001057063740199251_nCidinha da Silva, mineira de Belo Horizonte, é escritora. Autora do livro “Racismo no Brasil e afetos correlatos” (2013) e “Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas do Brasil” (2014).

 

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