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sábado, 02 julho 2022
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A palavra como resgate de tecnologias ancestrais e coletivas

Eu sou Larissa Cordeiro, e escrevo desde que me entendo por gente. Sou neta do Sr. Cajá e de Dona Marieta; deve ser por isso que sou “pueta”. Nasci na periferia noroeste da cidade de São Paulo, no bairro do Jaraguá. Cresci ouvindo meu avô cordelista rimando pela casa, cantando Luiz Gonzaga com saudade do sertão, recitando Patativa do Assaré e rezando pro “Padim Padi Ciço do Juazeiro do Norte”. Ele dizia que na vida, a gente tem que aprender a ler, escrever e contar!

A verdade é que a escrita, ao meu ver, nunca foi uma opção. Eu escrevo pra me sentir viva. Em 2012, criei um blog pra reunir meus escritos e, em 2014, lancei um livrinho de bolso intitulado Você Não é Seu Emprego. A minha maior surpresa veio quando conheci os movimentos de saraus da kebrada; eu fui percebendo que meus escritos — íntimos, criados no meu universo particular — faziam sentido pra outras pessoas também, porque, como aprendi, a experiência de uma pessoa, pode representar a experiência do grupo ao qual ela pertence. Desde então, ali eu tava em casa, entre os meus, não precisava justificar o porquê escrevo. Experimentei a sensação de pertencer a algo. Isso foi muito transformador!

Quando conheci os slam’s, em meados de 2013, pude fazer parte do movimento que a juventude de kebrada construiu a partir do resgate da tecnologia ancestral mais valiosa e simples:  a tradição da oralidade. Quem conhece o movimento de slam’s, sabe que assistir a performance das pessoas é bem diferente de ler poesias de um livro. A Literatura Periférica foi fundamental nos meus processos, desde me reconhecer enquanto escritora, poeta, politizar minha escrita, até no movimento de tapar os buracos da formação da minha própria identidade.

Não menos importante, gostaria de mencionar minha relação com o Funk. Graças ao meu irmão do meio, Álvaro Antônio, eu ouvia muito Funk. Dou os créditos a ele, porque foi ele quem me apresentou o universo Funk da forma mais singela que eu pude acessar. A segunda onda do movimento (2008/10) tava a todo vapor em São Paulo, tanto o Consciente quanto o Ostentação, e foram vertentes que me atravessaram e influenciaram muito, mas o Funk tem um lugar afetivo na minha trajetória, representa muito da minha relação com meu irmão e minha família, do que vivi e vivo, sendo quem sou e ocupando o lugar que ocupo no mundo. Carrego como referências nomes como Mc Felipe Boladão, MC Daleste, Mc Duduzinho, MC Tartaruga, entre muitos outros que cantaram e cantam até hoje nossas neuroses, conflitos, emoções, vitórias e anseios, sejam individuais ou sociais. O Funk tem a capacidade de fazer dos afetos, política. Posso dizer, com segurança, material e figurativamente: O Funk realmente me salvou! E salva todos os dias. 

Hoje, para além de vivenciar, eu pesquiso Literatura e Funk no curso de Ciências Sociais da UNIFESP, sou produtora cultural vinculada aos coletivos Salve Kebrada e Slam do Pico, ambos na minha kebrada. Tenho minha trajetória marcada pela minha relação com a escrita, a oralidade e o Funk. Me pego pensando que, tendo em vista de onde eu vim, o que eu vivi e quem eu sou, estar onde estou não significa pouco, e se a opção de falhar nunca nos foi nada, não vai ser agora, né? 

E como diria meus avós: 

“Essa menina não tá roubando não, ela tá herdando” 

Não é mérito, é herança! 

Honro e agradeço!

Larissa Cordeiro é poeta e produtora cultural, e uma das idealizadoras do Slam do Pico.

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Cristhiane Faria
Cristhiane Faria
Cristhiane Faria aka Nega Cléo é poeta, slammer, modelo, dançarina, arte-educadora e Fundadora da GRIOT Assessoria, agência de Relações Públicas com a missão de perpetuar as histórias de artistas, eventos, projetos culturais e criadores de conteúdo pela mídia e na internet. | Contato: [email protected]
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