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TRANSarau: sobre união, poesia e luta

“Quem aqui é cisgênero?”, perguntou a mulher que dava vida a uma uma crônica. Muitas mãos cis ergueram-se. Fiquei chocada, achei que nossa equipe era exceção ali, mas a maioria era cis. E a fala trans de protagonismo colocou o dedo na ferida. “Você que é cis, reconheça seu lugar de privilégio”. Nunca me pensei como privilegiada em quase nada: afinal sou mulher, negra e pobre. Mas sim, tenho privilégios por ser uma mulher cis. E nisso a noite de ontem foi contundente em revelar.

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Presenciando a cena de quem usualmente cumpre apenas o espaço de “cota”, pensei sobre a música apresentada que dizia sobre a sensação de se sentir sempre como um peixe fora do aquário, a sensação de ter os olhares o tempo todo voltados para si como se dissessem “você não deveria estar aqui” e os diversos modos de violência cotidiana como a falta de oportunidades. Tudo isso, cantado por uma voz suave que embalava verdades como uma brisa serena.

Entrevista com Danna Lisboa

Entrevista com Danna Lisboa. Foto: Amabile Roberta

A noite foi épica. Ao chegar no Sesc Belenzinho entrevistamos Danna Lisboa. Primeiro preciso dizer como fazer uma entrevista a três foi bom. Amanda, minha companheira de trabalho é muito generosa e inteligente. Juntas não dividimos as entrevistas, nós as multiplicamos. Voltando à Danna, como pode alguém tão fantástica? Além de uma artista competente e profissional, ela também tem uma visão muito ampla sobre a sociedade e as possibilidades de mudanças. O show foi maravilhoso, as dançarinas, dj, letra e a performance lacradora. Foi uma honra e uma delícia conhecê-la e entrevistá-la.

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Entrevista com Liniker. Foto: Amabile Roberta

Na virada desse ano, um dos meus pedidos para o universo foi entrevistar a Liniker. E sim, na noite do TRANSarau esse sonho foi realizado. Queria saber principalmente sobre como ela sente a arte e fiquei emocionada. Sempre considerei admirável pessoas que têm coragem de sentir, ao invés de fugir dos sentimentos. Como artista tento cultivar isso em mim, por mais que muitas vezes doa. E a Liniker é um grande exemplo de uma artista que tem coragem de sentir e, mais, de cantar isso para o mundo. Mais do que perguntar, Amanda e eu estávamos numa energia de gratidão pelo modo como a arte dela nos toca.

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Entrevista com Téo e Patrícia, do cursinho Transformação. Foto: Amabile Roberta

No palco, Liniker se emocionou ao compartilhar um mesmo sentimento com o público. Havia uma atmosfera especial ali, de união, de acolhimento, de liberdade e de luta. Poder falar, poder cantar, poder estar no centro do palco sem omitir sua real essência. A apresentação do evento pela Patrícia e pelo Téo foi perfeita. Eles representaram muito bem os alunos do cursinho Transformação e nos ensinaram muito.

 

Foi emocionante no sentido mais poético que essa palavra pode ter. Por mais que eu esteja atenta às discussões que envolvem nossa luta pela igualdade de oportunidades e respeito às pessoas trans, a arte chega a lugares que desconhecemos dentro de nós. Fui tocada por caminhos que eu mesma desconheço e posso dizer que meu apoio e engajamento nessa luta não são mais apenas discursivos. Quero ouvir mais, sentir mais, viver mais e ir até o limite que minha cisgeneridade permitir, reconhecendo essa limitação e apoiando que vocês protagonizem muito. Pareceu um sonho, um sonho muito bom!

*O TRANSarau foi parte da programação da Mostra Motumbá – Memórias e Existências Negras, que acontece no Sesc Belenzinho até março.

Equipe TNM

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