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Nelson Cavaquinho: 31 anos de saudade

Em berço humilde, nasceu. O choro bradou rouquidão. Uma voz singular. Queria ter olhos para ver a maldade desaparecer. Foi contemplado. Mas apenas por uma parte: tinha olhos de observador. Muito via e fazia ver. Mas, ora, a maldade até hoje ainda existe. E ainda há quem queira vê-la desaparecer.

Das folhas, contava as secas. Das chuvas, contava os alagamentos. Dos amores, contava as ilusões. Dos mares, contava os afogamentos. Era poeta, sim. Mas era diferente. Não era seu samba alegre. Era real. Confessava tristes finais que nem todos queriam dizer. Tinha voz de mundo, olhos de águia. Foi sempre sincero. Sabia que a todos restaria o juízo final.

Era espinho. Mas, é claro, não machucava a flor. É por isso que, mesmo tão triste, seu samba salvava em vez de golpear. Tirava sorriso do caminho para que passassem as dores. Foi sensível toda a vida. De tanta sabedoria, as rugas fizeram residência em seu rosto.  

O arranjo de sua família era bastante musical. Aprendeu cavaquinho com o pai, que tocava tuba. O tio tocava violino. Com uma caixa de charutos e arames esticados fez seu instrumento. Era filho de policial e de lavadeira. Irmão de cinco. Morando na Gávea, na adolescência, conheceu o choro. Logo ele, que sempre fingiu-se feliz para seu pranto ninguém ver. Frequentou rodas de choro. Conheceu Cartola e Carlos Cachaça. 

De tanto desgosto, morreu duas vezes. Uma das mortes era, na verdade, um sumiço. Talvez de quem sempre viu o que ninguém via. Muita gente tinha o corpo tão bonito, mas tinha a alma toda tatuada. Não era o caso de Nelson Cavaquinho. O compositor sempre escancarou o que lhe afligia. De poucos recebeu flores, carinho e mão amiga em vida. Achou que ninguém se lembraria que foi embora. Hoje, que se chama saudade, recebe preces e nada mais. Preces e tributos. Além, é claro, as saudades.

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