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Mulher negra assediada no Facebook faz desabafo que viraliza e revela uma triste realidade

Um desabafo de uma mulher preta, constantemente assediada nas redes sociais, vem chamando a atenção de todos e mostra uma triste realidade.

Depois de um sujeito desconhecido lhe chamar para transar, do nada, as 23:00 no inbox do Facebook, ela fez uma postagem irônica:

” Eu até gosto de sexo, mas esses dias eu só queria que, além disso, alguém me chamasse pra tomar um sorvete”.

O que ela não esperava é que essa ironia, além de não ser entendida, teria um desfecho ainda mais inusitado que a proposta recebida anteriormente. Como se já não fosse ruim o suficiente, ela começou a receber uma enxurrada de convites desrespeitosos para tomar “sorvete”.

Indignada com os fatos, ela publicou o texto abaixo, que foi compartilhado várias vezes. Além disso, ela vem recebendo o apoio de várias outras mulheres pretas que se sentem da mesma forma e são vítimas desse tipo de assédio todos os dias.

Além do problema do assédio, uma outra questão é levantada, a solidão da mulher negra.

 

O desabafo

Essa semana eu fiz um post despretensioso e irônico no Facebook, que teve um desdobramento que eu não esperava. De repente, mais de cem curtidas, várias mulheres identificadas e alguns convites pra tomar sorvete.

Dou risada sem motivo pra piada, pois, por de trás desse deboche todo, reside o fato de que nós mulheres negras não experimentamos o amor em sua completude. Não vivenciamos plenamente o afeto em nossas relações, quando há relações. Via de regra, estamos sempre e tão somente no mesmo lugar, na cama!

Eu fiz o post porque constatei que nesses meus quase 30 anos (socorro), eu nunca recebi flores, nem pedido de namoro, nem nunca ostentei uma aliança de compromisso. Poucas vezes fui ao cinema ou fui convidada à tomar um sorvete em um domingo de Sol.

Eu sempre imaginei, durante todo esse tempo, que essas demonstrações de afeto não eram tão importantes pra mim, e me colocava no lugar da mulher livre, que dava conta dos seus próprios desejos sem preocupação com os julgamentos alheios. Sem fazer questão de certas gentilezas e do que eu chamava de “teatro social”, títulos, pedidos e almoços de domingo…

Só que eu andei repensando essa minha trajetória, nesse quase 30 anos (socorro), talvez eu não tenha dado tanta importância a esses clichês como mecanismo de defesa. Dizer, pra mim mesma, que aquilo tudo não era necessário na minha vida, seguia a mesma lógica de afirmar, pra mim mesma, que odiava forró, quando a realidade é que ninguém me chamava pra dançar.

É dizer pra mim mesma que eu não precisava daquilo, quando na realidade eu não tinha aquilo. Aquele tipo de amor, cuidado e afeto não me eram ofertados, é bem diferente!!!

Eu fiz o post porque estou cansada de ouvir as lamentações de minhas irmãs pretas (migas não é pessoal, tô aí pra vocês!!! ♥), porque estou cansada de ver mulheres MARAVILHOSAS, sozinhas! Ou de mulheres MARAVILHOSAS, recebendo tão pouco, que é como se estivessem sozinhas. Porque eu estou cansada de gente cara-de-pau me procurando às onze da noite pra fazer alguma “coisa”, sem nem mesmo me conhecer pessoalmente. Facebook não é Tinder, véi!!

Estou cansada de ver minhas irmãs sendo abandonadas, porque seus parceiros não seguraram o rojão de elas serem tão FODAS!

Cansada de ver D E U S AS sendo preteridas por homens/mulheres (sim, porque existe solidão da mulher preta lésbica/bissexual, também), e eu me pergunto: “Como?!”.

Enfim…

Eu fiz o post porque estou cansada de estar cansada.
Eu fiz o post porque, quando o mundo nos tira o direito ao amor, ele nos tira a humanidade, ele nos coisifica. É por isso que, NÓS PRECISAMOS CONSTRUIR UMA NARRATIVA DE AMOR, ENTRE NÓS!

Nesse meus quase 30 anos (socorro), eu decidi que agora eu quero, e vou exigir, todos os clichês.

Quero sorvete, quero serenata, quero pedido de joelhos, aliança no dedo, cinema às quartas-feiras e almoço de domingo. Quero flor. Quero girassol, begônia, sempre viva, lavanda, quero a porra toda! Porque nem eu, nem nenhuma outra mulher preta, merece menos!

Vi esse vídeo hoje, da linda Belize Pombal, e achei corajoso!!!

 

 

Às mulheres pretas, meu amor imenso!!

Luedji Luna

 

Esse foi o relato e desabafo da cantora Ludja Luna, sobre essa recente e traumática experiência.

Nós do TNM gostaríamos de saber se vocês já foram vítimas desse tipo de assédio, virtual ou presencial. O que vocês pensam acerca da solidão da mulher negra? Vocês também sentem isso? Sabemos que sim, mas gostaríamos que vocês compartilhassem conosco, se estiverem a vontade.

 

 

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2 Comentários


  1. Alberto Barbosa

    09/04/2016 em 16:08

    É isso minha cara, para ser amada, uma pessoa deve começar a se aceitar, sem estereótipos e sem padrões de beleza a serem seguidos. E ser forte o bastante para receber críticas e indiferença das outras que geralmente são vazias de amor por estabelecerem modelos de conduta e aparências como estilo a serem copiados. Ame-se mais e tudo resplandecerá. Não podemos colocar o amor externo acima do amor-próprio.

    Responder

  2. Santiago

    09/06/2016 em 10:12

    Maneiro.

    Responder

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