Música

Mallu Magalhães faz um clipe racista e gera repercussão na internet

Mallu Magalhães lançou recentemente um videoclipe que tem gerado bastante polêmica principalmente dentre a comunidade negra. O TNM então, assistiu à produção da cantora para entender a discussão. O clipe é para a música “Você não presta” e foi lançado no canal da cantora no youtube, na última sexta (19). Nele, Mallu surge em cenários inusitados como na rua, dentro de um furgão, em meio a uma série de paineis solares e principalmente numa construção inacabada de um prédio. A produção foi feita em Portugal e foram escolhidos dançarinos que moravam lá para comporem o cenário. Reparem bem, comporem o cenário.

Todas as cenas se passam  a partir da mesma perspectiva: Mallu Magalhães cantando na frente e os dançarinos negros dançando atrás dela. Há momentos em que só aparece a cantora na cena e outros em que só aparecem os dançarinos. Mas não há nenhum momento em que ela interage com eles. Os dançarinos estão lá fazendo suas perfomances atrás dela e ela, “bela”, cantando na frente como se eles não existissem.

As primeiras cenas são dos corpos negros banhados a óleo. Mas por que óleo? De onde se tira isso? Esta é uma técnica utilizada pelo audiovisual para enaltecer a sensualidade do corpo. Corpo este, que fica ainda mais evidente devido às roupas utilizadas pelos dançarinos – homens sem camisa, mulheres de top e o performer andrógino é o único que está com mais tecidos em seu figurino. Mallu veste uma camiseta e um short durante todo o clipe e não apresenta em seu corpo o óleo destinado à sensualização. Detalhe: ela utiliza uma camiseta com os dizeres “Oscar 2002”, em referência à única edição do evento em que dois negros, Denzel Washington e Halle Berry, ganharam troféus de melhores atores. Humm, o que será que ela quis dizer com isso? Os passos de dança lembram Kuduro e outras danças africanas, mas também há samba rock para que não se esqueça de sua “brasilidade”.

O incômodo piora. Eis que surge uma cena em que todos os negros estão atrás das grades. Sim! Os mesmos negros que estavam dançando sensualmente sem camisa ou somente com top em uma construção, aparecem atrás de uma grande estrutura feita de grades e quando a cantora aparece neste cenário, a câmera – é óbvio – filma pela perspectiva de dentro desta estrutura. A mulher branca de classe alta não pode aparecer por trás das grades, não é mesmo?

Agora vamos à letra da música e após, a uma breve reflexão:

“Vem, eu não tenho mistério, não
Eu guardo as minhas cicatrizes
Mantenho as minhas diretrizes

Não, eu não tenho segredo, não
Mas tenho o meu império interior
Meu mundo solitário
Eu convido todo mundo para a minha festa
Só não convido você porque você não presta
Eu convido todo mundo para a minha festa
Só não convido você porque você não presta

(…) Quem sabe demais, quem nunca chorou
Quem nunca perdeu tudo, nunca viu o carnaval
Quem pensa demais, quem nunca falhou
Quem nunca ficou louco, não fugiu do carnaval

Você se faz de louca
Mas tô sacando seu veneno
Não vem na minha sopa
Não vem no meu terreno”

Mallu Magalhães pode até ter tido a intenção de colocar os negros como “todo mundo” que ela convida pra sua festa (segundo o argumento dos fãs da cantora), mas a maneira como ela diz “tenho meu império interior” e “não vem no meu terreno” demonstra a enfatização que ela dá aos seus privilégios de branca. A sua postura no decorrer do clipe só confirma sua soberania em relação aos negros. Não adianta vir com a frase “não sou racista, até tenho amigos negros” ou com “olha como sou amiguinha dos negros, eu os convido para a minha festa” ou até mesmo utilizar uma camiseta que “honra” a premiação de negros. Portanto, seu videoclipe foi, de maneira implícita e talvez naturalizada, altamente racista. Utilizar negros em produções tornando-os parte do cenário e sexualizando seus corpos é racismo. 

O preconceito racial não se expressa somente na expulsão de um negro do supermercado por acusá-lo injustamente de roubo. O racismo pode se expressar sutilmente como na presença mais enfática do segurança te seguindo por uma loja ou quando, na portaria do local em que você trabalha, te pedem o crachá, porque é um local predominantemente branco (e suas colegas brancas e sem crachás passam pela portaria com o cumprimento simpático dos funcionários). Ou até mesmo no assédio de um chefe branco te dizendo ao pé do ouvido que sempre quis “pegar” uma “mulata”. E é por causa deste reforço das estruturas racistas que essas e muitas outras situações fazem a população negra não ser reconhecida por sua competência ou lidada com o respeito que se deve a todo ser humano.

Então, Mallu Magalhães, seu video clipe é racista, sim. Que tal baixar a soberania, assistir “Querida gente branca” (disponível na Netflix) e pedir consultoria a integrantes de movimento negro para saber se o que você pensou em colocar num trabalho pode ofender alguém?  Fica a reflexão.

 

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