Crítica

“Eleguá, Menino e Malandro”: do choro ao riso, tal qual Exu

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Na fuga do padrão eurocêntrico de subir aos palcos, “Eleguá, Menino e Malandro” traz a não linearidade das histórias africanas fazendo renascer, no escancarar das cortinas, a figura do griot. Em suas diversas facetas interpretadas por Giselda Perê, Renato Caetano e Rubens Alexandre, o mais importante orixá da santeria cubana representa ruptura social sobre os tradicionais contos de fadas a partir da figura de um príncipe travesso.

Perspicaz, ao som da primeira voz de Eleguá, a presença de portas e janelas confere à peça a essência do orixá. Exu, conforme é conhecido na cultura afro-brasileira, abre e fecha caminhos, com sabedoria e irreverência. Senhor do princípio e transformação, é a figura que mais se aproxima do ser humano na crença e talvez por isso seja a ele atribuída a alcunha de diabo.

“Eleguá, Menino e Malandro”, escrito e dirigido por Antonia Matos, fundadora do Clã do Jabuti, parece desfazer o renome infernal direcionado àquele que é capaz de promover guerra ou paz, lágrimas ou sorrisos, aceitação ou repulsa. De maneira lúdica e didática, a peça teatral aborda Exu a partir da fusão de cultura africana, brasileira e cubana, sendo a terceira predominante inclusive no roteiro quando a personagem de Giselda Perê diz “Mira, mira, mira: é Eleguá”.

Cingida pela voz de Jonathan Silva, também compositor e diretor musical da obra, a percussão de Rômulo Nardes compreende narrar a criação do mundo a partir da cabaça, ventre do mundo que dividiu terra e céu. Na representação da gênese, divisão do mundo em òrun e àiyé, a tradição faz uso de uma cuia cortada em duas metades que se mantêm sempre unidas, em memória aos tempos em que homens e deuses transitavam livremente entre os dois mundos.

Em sequência, a presença de Eleguá se faz em forma quase que de ibeji, ou seja, criança. Dessa forma, personagem e público-alvo se aproximam com irreverência e graça, a partir das gargalhadas e interação, quando reflexão e humor consciente dividem o palco. Ninguém fica de fora da encruzilhada, nem mesmo os musicistas que dividem espaço com os atores: ora tocam, ora cantam, ora narram, ora protagonizam.

Nesse sentido, o espetáculo se aproxima ainda mais da cultura africana no que diz respeito à construção social participativa, de onde é bastante conhecido o conceito filosófico de Ubuntu (eu sou porque nós somos). Quem sobe no palco se torna parte da história, assim é também com qualquer artefato presente no enredo ou com qualquer criança que, por descuido, invade o espaço.

Exu, apesar de protagonista, não é o único orixá presente na peça: em dado momento, a orixá da fertilidade e da beleza, Oxum, tem parte no enredo. Nesse momento, a interpretação de um homem sobre uma manifestação feminina é capaz de arrancar gargalhadas do público, ainda assim de maneira sensível. Nesse aspecto, a interação com as crianças se faz de modo mais espontâneo, deixando pouco de lado a parte da denúncia que, provavelmente, só adulto consegue ver.

Não bastasse a expressão cultural afro-caribenha a que o espetáculo faz vociferar, a relação entre Exu e a rua é representada por manifestações musicais marginalizadas, tais quais o próprio orixá. Em meio à contação de histórias em que se misturam três Eleguá dentro de um só, na complexa construção das entidades da religião de matriz africana, eis que surgem elementos que aproximam o griot do público contemporâneo.

De repente, a aproximação entre mito e realidade se faz através do rap, do funk, do blues e até mesmo do repente. A ressignificação transforma a contação de história em movimento de expressão cultural e identidade negra, a partir do fenômeno da representatividade como forma de associação entre vivência e personagem.

As composições musicais que trazem a rua à figura de Eleguá são entoadas pelos três protagonistas da peça. Giselda Perê, grávida do segundo filho, com maestria escolhe o tom do pancadão que canta, de acordo com o entusiasmo de seu personagem. Nem mesmo a espera de um eleguá no ventre é capaz de fazê-la perder o fôlego e assim é também com Renato Caetano e Rubens Alexandre.

O espetáculo quer lembrar, na marginalização do orixá – seja pelo imaginário social, seja pelas histórias que o contemplam -, a marginalização das parcelas socialmente vulneráveis. Eleguá, Elegba, Elegbara, Exu é a representação de grupos injustiçados, de histórias distorcidas, cerceadas por preconceito e discriminação. “Galo nem cantou, sabiá ficou calada, quando Eleguá chorou e botou os pés na estrada. Pássaro sem ninho, gavião sem asa, saudade do colo da mãe, vontade de voltar pra casa”, canta Jonathan Silva ainda no início da trama, quando Eleguá é expulso de seu lar, momento que faz emocionar de adulto à criança.

Apesar de passar muito tempo longe, Exu um dia retorna para casa em busca de aceitação após ouvir de Oxum que “se o lago não sabe onde nasce, então ele morre”. Nessa fase do enredo, os conflitos se acentuam quando o orixá é ignorado por seus pais e então a ordem do mundo é quebrada. Talvez o roteiro queira aproximar-se da realidade, criticando a forma com que Eleguá é tratado no imaginário social.

Aliás, é nesse sentido que a peça busca estabelecer novas perspectivas a partir do final em que os outros orixás reconhecem a importância de Exu. Quiçá seja essa a missão do espetáculo: não fazer que o público deixe a peça saudando, Laroyé, mas colaborar para que as cortinas sejam fechadas e os sorrisos das crianças sejam direcionados à graça de Exu e as lágrimas dos adultos sejam em honra ao senhor dos caminhos. Afinal, “Eleguá, Menino e Malandro” leva do choro ao riso, tal qual Exu.

Compartilhe esta notícia
Load More Related Articles
Load More By Amanda Sthephanie
Load More In Crítica

Facebook Comments

deixe uma resposta

Seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *