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Dia do Índio: respeito aos donos dessa terra

Foto: Reprodução/Facebook

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Filha da floresta, me repreendeu: “Sani, se pronuncia Sani”. Índia Kalapalo do alto do Xingu, Ysani Aweti Kalapalo me contou sua história uma vez, quando eu fazia matéria para a faculdade. Quando entrei em contato com a indicada ao Prêmio Nobel da Paz em 2012, pela luta muito conhecida internacionalmente e pouco valorizada nacionalmente, pouco esperava ser respondida. No entanto, para minha surpresa, com respeito e carinho, Ysani acolheu a mim e a outras duas amigas num passeio em Embu das Artes, onde vivia na época. Eu que tanto homenageio negros em suas datas celebrativas, hoje peço licença para homenagear pessoas como Ysani, mesmo sabendo que ela não pode representar a diversidade indígena no Brasil e no mundo.

Descendente dos Aweti e Kalapalo, Ysani deixou a tribo aos 12 anos quando trocou a sociedade indígena pela sociedade branca – ou dos karaíbas, como costuma dizer. De pernas arranhadas pelo Paga Hotugu, semente encontrada no Alto do Xingu, a mulher indígena fundou o Movimento Indígenas em Ação pela luta contra a construção da Usina de Belo Monte. Afinal, o ‘homem branco’ não apenas deslocou os índios quando sentiu ter descoberto o Brasil, mas prolongou as ações de destruição aos poucos territórios e às poucas reservas que lhes sobraram, além da tentativa de desfazer da cultura de um povo, hoje composto por aproximadamente 305 etnias e 274 línguas, que representa mais de 6 milhões de índios que ocupavam o Brasil antes da chegada dos portugueses.

Apesar das influências dos karaíbas, Ysani Kalapalo nunca deixou de lado a sua fé: filha do Grande Espírito, a militante indígena acredita ser possível levar sua fé por onde anda: “nossa fé é politeísta, respeitamos cada espírito de cada árvore e também o Grande Espírito”, explicou a mim e às minhas amigas, dizendo ainda a importância da música e do artesanato como formas de resistência cultural. Entre os Kalapalo, mulheres cantam e homens tocam em ritos importantes, quando só então usam as pinturas que representam proteção sagrada. Tendo chegado no centro para um tratamento médico, a Kalapalo se acostumou com a nova vida e passou a transitar, com respeito e sensibilidade, entre tribo e sociedade branca, principalmente por considerar importante a inserção nesse contexto, onde pode reivindicar os direitos de seu povo porque domina a língua portuguesa.

Ysani Kalapalo em desfile pela Imperatriz em 2017, na Sapucaí. Foto: Reprodução/Leandro Ribeiro

Ysani Kalapalo em desfile pela Imperatriz em 2017, na Sapucaí. Foto: Reprodução/Leandro Ribeiro

No mesmo encontro em Embu das Artes, conheci a mãe de Ysani. Índia curandeira, logo me ofereceu sementes que curam a depressão, a insônia, o pânico, a ansiedade e a dependência das drogas. De aparência maternal, a mulher não dominava o português, mas olhava com a expressão acolhedora com que, provavelmente, outros povos acolheram portugueses sem imaginar as consequências que aquilo lhes traria. Mesmo filha de curandeira, a indígena precisou vir à cidade aos 12 anos para um tratamento médico: em geral, nem mesmo os mais antigos índios conseguem curar as doenças que o homem branco levou às tribos por contágio.

Conheci, no mesmo dia, o pai de Ysani. Infelizmente não me lembro o nome dos familiares e, ainda que lembrasse, não saberia escrever, porque a pronúncia em muito se diferencia da escrita. Homem valente, a figura paternal cantava e chacoalhava no pé um chocalho de sementes, toda vez que mexia as pernas. Tinha prazer em cantar e tocar sua cultura. A irmã da Kalapalo, por sua vez, era muito tímida, um pouco mais restrita. Mas tinha mais índio em Embu, tinha inclusive um índio branco e de olhos claros, advindo de uma aldeia em Santos: muito carismático, me contou um pouco de sua história e me convidou a conhecer seu povo. Eu mal podia imaginar que, no litoral, tão pertinho, há tribos indígenas com tanta diversidade.

Aliás, creio que nem eu, nem outras pessoas imaginariam. O que se sabe sobre o índio é que hoje ele tem um dia conferido à sua história: 19 de abril. Se sabe também que, no carnaval, as pessoas amam fazer as pinturas em referência às deles, além do cocar que as professoras preparam para seus alunos na data de hoje. No entanto, se esquece que tem índio na cidade e índio na tribo e, em qualquer desses espaços, a atenção instaurada para essa parcela da população ainda é omissa e a inserção social é falha. Além disso, os karaíbas permanecem problematizando o índio que vem à cidade, como se ele não tivesse o direito à livre escolha de viver onde se quer. Quando não, quem fica na tribo é criticado por não acompanhar a sociedade branca. Hoje, em sua rede social, Ysani declarou: “ninguém deixa de ser índio por usar roupas da sociedade branca, porque ser índio está no sangue, na alma e no coração”.

Por isso, hoje, eu deixo de falar sobre negros, peço licença e, em homenagem à população indígena no Brasil, onde quer que esteja, ofereço meus cumprimentos à Ysani Aweti Kalapalo. Que dos índios nada mais seja retirado, dos hectares às vidas: que o Grande Espírito os proteja!

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