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Universidade branca e professores racistas, como sobreviver até a formatura?

“Suponho que em toda a sociedade a produção do discurso é simultaneamente controlada, selecionada, organizada e redistribuída por um certo número de procedimentos que têm por papel exorcizar-lhe os poderes e os perigos, refrear-lhe o acontecimento aleatório, disfarçar a sua pesada, temível materialidade”. Michel Foucault em A Ordem do Discurso.

Sim, a materialidade das relações de poder controla, seleciona e organiza quem pode falar, o que pode falar e em qual situação. Se você fez universidade e se você é preto ou preta sabe na capilaridade de seu ser o que essa citação de Foucault quer dizer. Durante meus 4 anos de graduação vivi coisas em sala de aula que faço questão de não lembrar. Para desqualificar meu discurso – que não reforçava as estruturas de poder tal qual estão – eu era vista como radical, autoritária, talvez louca e ainda não existia o termo, mas hoje falariam que meu discurso é mimimi.

Aos poucos fui percebendo que naquele espaço o que eu precisava era sobreviver. Mas sobreviver, no meu caso, nunca foi silenciar. Vi que entrar na universidade pública tinha sido o menor desafio e que permanecer lá, a despeito de todos os comentários racistas, sexistas, homofóbicos e impositivos, era o maior desafio de todos. Até onde vai o seu limite de humilhações, até onde vai o seu limite de isolamento social, até onde você aguenta ser apontado ou apontada como desajustado ou como alguém que não deveria estar ali? Essa é a realidade que encontramos quando cavamos um espaço nesses “centros de excelência” ou “templos do saber”. Até porque, voltando ao Foucult, saber e poder se relacionam intimamente.

Quero lançar aqui um tipo de manifesto, porque ontem alguém a quem eu quero muito bem viveu uma situação muito parecida com essas minhas vivências da faculdade. Ao presenciar o racismo explícito no discurso de um professor, ela saiu da sala. Outros negros que ali estavam calaram-se. E aqui está a questão. Cada vez que nos calamos um pedaço de um dos nossos que ainda acredita na mudança morre. Eu queria estar ali para protegê-la e esfregar na cara desse professor o racismo que ele não quer enxergar, porque está em consonância com o sistema. A estrutura é tão opressora que a vítima é julgada como errada. E depois, os amigos que deveriam acolhê-la, começam a dizer como ela deveria ou não agir naquela situação.

Acordemos! Mais do que enquetes de redes sociais, não se trata aqui de qual atitude ela deveria tomar. Trata-se do que cada um de nós está fazendo para que coisas como essa não continuem a acontecer. Ao invés de julgar a irmã, está nas nossas mãos criarmos formas de fazer esses professores se envergonharem de serem racistas. O manifesto nesse sentido, é para gritar ao mundo através desse espaço que é a internet. NÃO SE CALE! Levante-se e saia da sala com sua colega. E isso não importa se você é branco ou negro, basta que você pense um pouco sobre quais estruturas você quer reforçar com a sua atitude. Afinal, sempre agimos a favor de alguém. Silenciar é remar a favor da correnteza, é ajudar aqueles que oprimem e matar aquele que deseja mudança. Ontem lembramos o dia que sete tiros silenciaram o líder Malcolm. Até quando você acreditará que é possível se proteger em silêncio ou na posição de platéia, julgando aquele que age?

“Eles querem que alguém que vem de onde nóis vem seja mais humilde, baixe a cabeça, nunca revide, finja que esqueceu a coisa toda. Eu quero que eles se … ” Emicida

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