Opinião

Brancos racistas se divertem, militantes negros se combatem

Na última semana, as rappers Lívia Cruz e Bárbara Sweet se envolveram numa polêmica, após vídeo com conteúdo racista sobre o corpo, aparência e comportamento de DK e Lorde, ambos rappers integrantes do grupo ADL. O conteúdo fazia parte de um quadro no canal de Lívia chamado “React Objetificando”, cuja ideia era “inverter a lógica de gênero, a qual mulheres são constantemente submetidas […],  ‘reagindo’ a vídeos de RAP nacional só com homens, nenhum comentário sobre conteúdo artístico, somente sobre aparência”, segundo ela mesma, mais tarde, em pedido de desculpas no facebook.

“Ele é aquele cara que você vai encontrar ele saindo do camburão e você olha pra cara dele e não sabe se entrega o telefone ou se tira a calcinha. É uma dúvida: meu Deus do céu, será que sento na cara dele, será que passo minha carteira? Eu não sei o que faço. Nossa Senhora, ele vai me roubar, ele vai me comer? A gente não sabe. Essa dúvida é parte da atração que ele carrega com ele. Você olha pra cara dele, ele parece com aquele cara que tá lá na biqueira com fuzil na mão e isso é sexy”, disse Bárbara Sweet se referindo ao DK, do grupo ADL.

Lorde, outro integrante do grupo também não escapou da objetificação pela rapper branca, que repetiu a ideia da “carteira ou calcinha”, finalizando o apontamento com “Essa é a dúvida que me acomete com pessoas que se encaixam nesse padrãozinho específico”. Lívia Cruz, por sua vez, comentou que “esse é um pensamento coletivo”, explicando que já ouviu que outras pessoas a mesma dúvida sobre o que fazer (tirar a calcinha ou entregar a carteira).

O pedido de desculpas de Bárbara Sweet, também no facebook após a polêmica, adiantava: “Não existe outra maneira de começar esse texto sem ser pedindo desculpas a todos os negros e negras que se sentiram ofendidos pelo video “objetificando” feito por mim e pela Lívia Cruz”. Nesse trecho, seria melhor utilizar ‘a todo negros e negras que foram ofendidos’, afinal vítimas de racismo não se sentem vítimas de racismo, elas são vítimas de racismo. Uma ofensa dessas é contra toda a comunidade negra, inclusive contra o feminismo preto (e periférico) que luta para desconstruir a cultura do racismo que paira sobre mulheres e homens negros.

Frente à manifestação racista das rappers, homens e mulheres negros se pronunciaram, principalmente nas redes sociais. Em meio ao caos, um grupo de mulheres negras disse que não se pronunciaria porque homens negros não costumam se pronunciar. Essa talvez seja inclusive uma cultura atribuída ao constante envolvimento amoroso inter-racial, ao qual se denomina ‘palmitagem’.

Em seguida, um rapper negro famoso de pronuncia. Ele indica inclusive rappers negras com trabalhos incríveis como Drik Barbosa, Karol Conká, A’s Trinca, dentre outras, que devem ser fortalecidas para que o público deixe de perder tempo com as rappers brancas que, embora preguem gênero, não consideram raça em sua discussão.

O artista no entanto, possui em seu histórico alguns trabalhos com letras machistas que já constituem brigas antigas com algumas mulheres negras do movimento feminista. Dada a antiga desavença, o movimento negro passa a cobrar a opinião de uma famosa militante do mundo acadêmico. Ela, por sua vez, diz que não pretende se manifestar sobre o acontecido. O rapper negro, no entanto, explica seu posicionamento e, ainda assim, recebe duras críticas.

Assistindo à crise, uma mulher negra faz um texto com o mesmo intuito deste: entender porque a negritude não se pronuncia sobre as rappers brancas, mas se pronuncia contra a própria negritude que expõe sua opinião sobre Lívia Cruz e Bárbara Sweet. Nesse momento, a importante militante entra na história comentando a postagem dessa mulher negra com duras críticas e grande envolvimento do conhecimento acadêmico.

Os comentários na publicação rendem a formação de times que escolhem seus lados: qual das pretas defender e qual das pretas atacar? A mulher que escreveu o post escreve um novo pedindo que o assunto seja esquecido e a que comentou também desenvolve o seu, explicando que as mulheres negras estavam defendendo homem negro misógino e ela se defende dos ataques recebidos diariamente.

Logo se inicia um debate sobre raça ser ou não o centro das discussões. Afinal, classe também é importante, não é mesmo? Sim, mas para debater gênero precisa antes passar por raça ou para debater raça precisa antes passar por gênero? Ou a ordem não importa? Ou, de tudo isso, basta pesquisar no Google o nome dos envolvidos e fica por isso mesmo? Quem sabe, a culpa seja mesmo dos negros e negras. Ou seja, nossa.

E cadê a discussão sobre Lívia Cruz e Bárbara Sweet? Ou ainda sobre a blogueira branca que usou uma fantasia no Baile da Vogue em “homenagem aos escravos”? Ninguém viu, ninguém sabe. Estamos ocupados brigando entre nós. E todos vocês sabem os nomes dos negros e negras envolvidos nessa discussão maior – o rapper, as militantes. No entanto, aqui esses nomes não importam. Importa o nome de quem perguntou “a calcinha ou a carteira”. E a elas, deixamos a declaração de um poeta negro, Akins Kintê: “Nem assaltar, nem deitar com vocês. TAMO POCO SE LIXANDO PRA VOCÊS!”

 

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