Não Me Representa

Ator Paulo Gustavo se desculpa após polêmica pelo uso de blackface em personagem caricata

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Recentemente o ator Paulo Gustavo, peça principal em programas humorísticos como “220 volts” e “Vai Que Cola”, se meteu em uma confusão nas redes sociais por conta de uma de suas personagens, a Ivonete.

Após muitos de seus seguidores reclamarem, o ator tentou se defender usando o seguinte texto em uma postagem resposta:

“No dia de hoje soubemos que 50 pessoas foram covardemente assassinadas em Orlando somente por suas condições sexuais. Nesse mesmo dia em que deveríamos estar todos de luto repensando nosso ódio, nossos preconceitos e nossos limites de compreensão, tem gente que veio me atacar por representar uma mulher negra. Eu nunca fui atacado por representar um playboy machista, mesmo sendo gay. Também não se incomodaram por eu fazer um nerd, uma mulher feia, uma vagaba, uma mãe de família ou um anjo… Nunca me atacaram por representar a Senhora dos absurdos – uma mulher que se orgulha ridiculamente de ser branca, rica e hetero. Mas a Ivonete – que se orgulha de ser brasileira, mesmo sendo crítica ao Brasil, que é pobre mas não se sente moralmente inferior a ninguém, que gosta de ser mulher e sobretudo tem auto-estima, amor próprio e orgulho de ser como é – me rendeu injustas críticas. Eu conheci muitas Ivonetes na minha vida e tenho orgulho dessas mulheres. Ao contrário de outras personagens que eu uso para ridicularizar o tipo que elas representam, a Ivonete existe pra ridicularizar quem a ridiculariza, porque eu quero rir de gente que não gosta das Ivonetes. Porque eu amo a Ivonete. Ela é negra, nasceu negra e eu tenho o mesmo respeito por ela que eu tenho com todas as pessoas.”

 

13450992_1383393905020538_4976124068656882468_nClaro, como a defesa foi extremamente rasa e equivocada, trouxe mais uma enxurrada de críticas. Gustavo, deixou claro que tudo que ele conhece do sofrimentos dos negros e das dificuldades de ser uma mulher negra no Brasil, é zero. Ele acha que mulheres negras se resumem em barraqueiras, sambistas e periféricas. Ou seja, extremamente estereotipadas. O curioso é que todas as pessoas quando se lembram de “homenagear” negros, acabam por fortalecer o ranço racista, mostrando negros justamente da maneira que os negros não suportam serem vistos. Escravos, bandidos, empregados, beberrões, pobres, hiper sexualizados e uma série de outras coisas. O engraçado é ver um monte de gente branca, que não faz a menor ideia do que é ser negro ou sofrer racismo, querer tomar partido e argumentar que se trata do velho “mimimi” por parte de quem reclama. Outros dizem que o mundo está mais chato por não poderem ser racistas em paz nos dias de hoje.

Paulo Gustavo é um homem inteligente, não é por acaso o sucesso de seus personagem e dos programas que participa. Por isso, ele se retrata publicando um outro texto, desta vez um pouco mais lúcido. Leia o texto abaixo.

 

“Nesses últimos dias li, ouvi, pensei e entendi que há uma longa discussão sobre o uso de “blackface” muito anterior e muito maior do que eu, minha carreira, minha personagem e o 220 volts, por isso decidi refazer a Ivonete sem que ela pareça uma caricatura risível da mulher negra. Ela não é. Ivonete é esperta, crítica, consciente e questionadora. É uma brasileira que passa por todas as dificuldades absurdas que todos passamos como a falta transporte eficiente, sistema de saúde precário, violência, etc etc etc… Ela se revolta, reclama, exige, sofre, mas não perde o rebolado, mantém-se de cabeça erguida, forte, guerreira e sobretudo alegre. Mas o blackface historicamente remete a experiências que são dolorosas para muitas pessoas e, mesmo não sendo a intenção, eu peço desculpas se ofendi ou magoei alguém. Eu posso pintar minha pele, posso fingir, representar, tentar dar voz a essa mulher, mas eu nunca saberei de verdade como é ser uma mulher negra. Nos textos, a alegria da personagem não fazia dela uma alienada, mesmo assim eu compreendi que a negra animada é um estereótipo que os movimentos negros combatem com razão pois na vida real, muitas vezes, não é nada engraçado. Apesar de conhecer e adorar muitas Ivonetes, ser negro no Brasil é difícil sim. Como ser mulher também é difícil; como ser gay também é difícil. Tanto na minha arte quanto na minha vida pessoal tenho feito o que posso pra tentar transformar o mundo num lugar melhor. Casei com o Thales, assumi isso publicamente, mudei minha certidão. Entendo que temos um grande processo de conscientização sobre o racismo, o machismo e a homofobia no Brasil e ele vem passando por etapas dolorosas. Eu não quero de forma alguma ser agente dessa dor, corroborar com preconceitos e manter o status quo de uma sociedade que necessita melhorar. Todos nós precisamos conversar e pensar mais a respeito. Eu tenho feito isso. Eu e a Ivonete”

 

13418973_1387996184560310_5206535514020470986_nPaulo deu uma reformulada na personagem e, convenhamos, ficou muito melhor. Nós do TNM gostaríamos de dar uma dica ao grande ator, Paulo Gustavo, e que sirva para os outros que desejarem “homenagear” pessoas negras; na próxima, gostaremos muito mais da homenagem quando nos vermos devidamente e respeitosamente representados. Podem começar colocando mais atrizes negras e de maneira decente, nos programas que criarem, não como a atriz Cacau Protásio em “Vai Que Cola”. Coloquem pessoas negras para representar papéis que não estão ligados a um “perfil”. Criem papéis para pessoas negras como médicos, advogados, mocinhos, mocinhas, protagonistas em geral. Dessa forma, acreditaremos que, de fato, está rolando um homenagem por tudo que já sofremos e já fizemos por esse país.

Obs. Só para corrigir uma parte do texto onde o ator fala que ele, assim como nós, faz parte de uma minoria, gostaríamos de esclarecer que não fazemos parte de uma minoria. Nós negros, somos quase 53% da população brasileira. Ou seja, maioria.

 

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