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Jerry Lawson negro e pioneiro na industria de games

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Imagine a seguinte situação: você está enfrentando um “chefão” de fase e, no meio da luta, seu telefone toca. Instintivamente você aperta um botão do controle e a ação congela enquanto você calmamente pode conversar com a pessoa do outro lado da linha ou responder a uma mensagem.

Por Rodrigo Lara do Gamehall

Via Uol

O mesmo vale para o simples ato de você poder jogar sozinho e enfrentar inimigos controlados pela inteligência artificial programada em cada game, sem a necessidade de ter outra pessoa para competir. É possível ir além: que tal ter um número baixo e limitado de jogos disponíveis para o seu console, sem a possibilidade que empresas criem novos títulos?

Padrões na indústria de jogos atual, a possibilidade de pausar partidas, de enfrentar inimigos controlados “pelo computador” e ter novos games lançados com frequência simplesmente não existiam nos primeiros aparelhos de videogame. Isso mudou em 1976 com o lançamento do Fairchild Channel F, criação de Gerald Anderson “Jerry” Lawson, um programador norte-americano nascido no bairro do Queens, Nova York, em 1940.

Reprodução

Pausar um jogo pode ser algo simples e corriqueiro hoje em dia, mas há 40 anos não era assim: o simples ato de atender um telefone ou ir ao banheiro significaria uma partida perdida

Um peixe fora d’água

A história de Lawson é particularmente curiosa por diversos fatores. A começar pelo fato de ele ter sido um dos poucos negros a atuar na região conhecida como Vale do Silício, na Califórnia, durante os anos 1970, época na qual o mercado de trabalho local era quase que totalmente dominado por brancos – a situação melhorou, mas ainda persiste nos dias atuais – e por acabar atuando em um segmento pouco desenvolvido da indústria de tecnologia.

Lawson era proveniente de uma família humilde e teve toda sua educação realizada em instituições públicas de ensino, sendo que sua mãe escolheu pessoalmente escolas de qualidade para que seu filho tivesse uma boa formação. Já o gosto do seu pai por tecnologia acabou influenciando o futuro do filho e o ajudou a desenvolver seu talento. Prova disso é que o garoto, por volta dos seus 12 anos de idade, chegou a montar uma pequena emissora de rádio a partir de um aparelho amador que ganhou de presente. Detalhe: as adaptações para tal foram criadas por ele mesmo.

Após trabalhar um tempo consertando e montando aparelhos eletrônicos, Lawson acabou indo trabalhar no outro lado do país, na Califórnia, em uma empresa chamada Kaiser Electronics, onde atuou até a oportunidade em uma empresa chamada Fairchild Semiconductor surgir.

Enfrentando o ceticismo

Quando começou na Fairchild, além da já citada questão racial, Lawson também encontrou uma indústria de games ainda em estado embrionário – tanto que desenvolver jogos eletrônicos passava longe de suas aspirações profissionais. O seu primeiro trabalho na Fairchild foi treinar outros profissionais na utilização de um antigo computador DEC PDP-8, o qual ficou acomodado na garagem de sua casa. Na Califórnia, Lawson também entrou para o Homebrew Computer Club, um clube local que reunia interessados por computadores. Lá ele conheceu Steve Wozniak e Steve Jobs, que viriam a fundar a Apple. Futuramente, Lawson foi o responsável por avaliar – e não contratar – Wozniak na Fairchild.

À época, a Fairchild havia desenvolvido um microprocessador chamado F8 e Lawson, em seu tempo livre, acabou criando uma aplicação para esse componente: um jogo chamado “Demolition Derby”. O programador também construiu um gabinete e instalou o conjunto em uma pizzaria da região. O clássico “Pong” havia sido lançado poucos meses antes.

Reprodução

Enfrentar inimigos gigantescos e poderosos está entre as partes mais empolgantes de jogos de videogame. Nada disso existiria sem a contribuição de Lawson à indústria

O interesse gerado por essa espécie de arcade rudimentar foi suficiente para fazer com que a Fairchild, que inicialmente não havia gostado do uso que Lawson fez do seu microprocessador, o procurasse para que ele desenvolvesse videogames para a empresa. O resultado disso tudo é que, pouco tempo depois, ele se tornou chefe da divisão de jogos da empresa, atuando diretamente com o desenvolvimento do console Fairchild Channel F.

Posteriormente, em uma entrevista ao jornal San Jose Mercury News, Lawson disse a razão pela qual ele resolveu trabalhar com games: “Fiz isso porque as pessoas diziam ‘você não pode fazer isso’. Eu sou aquele tipo de cara que quando escuto que não consigo fazer algo, eu vou lá e faço”.

Passo em direção ao futuro

O Fairchild Channel F foi lançado em 1976 e mudou diversos padrões na indústria de games até o momento. Para começar, ele foi o primeiro console a contar com um microprocessador dedicado, o já citado F8. O potencial desse chip permitiu a programação de inteligência artificial nos games. Ou seja: não era mais necessário chamar uma outra pessoa para jogar.

Divulgação

Lançado em 1976, o Fairchild Channel F inaugurou a segunda geração de consoles e trouxe inovações que mudaram a indústria de jogos

Outra grande novidade introduzida com o Channel F foi a utilização de cartuchos com programação própria, o que envolveu um desafio extra na criação do console por demandar, entre outras coisas, um sistema robusto que aguentasse trocas constantes de “fitas”. Além de oferecer mais variedade aos jogadores, a medida foi a pedra fundamental para o surgimento de empresas especializadas no desenvolvimento de jogos.

Por fim, o controle do console vinha com um botão chamado “Hold”, que abriu a possibilidade dos jogos serem pausados.

O algoz

Com tantos predicados, a dúvida que surge é: por que tanto Lawson quanto o Channel F não se tornaram nomes conhecidos na indústria de jogos? A resposta para isso é: Atari 2600.

Quando o Channel F foi lançado, a Atari estava desenvolvendo um console capaz de rodar cartuchos de games. Um ano tempo depois, chegava ao mercado o Atari VCS, que 1982 teve seu nome trocado para Atari 2600. Com desempenho superior em gráficos e som, graças a um memória RAM duas vezes maior do que a do concorrente, o novo console transformou o aparelho da Fairchild em peça de museu assim que foi lançado.

Reprodução

O algoz do Channel F foi um console bem conhecido dos brasileiros: o Atari 2600 trazia funções similares ao concorrente, porém oferecia gráficos e sons melhores

Isso motivou a Fairchild a abandonar o segmento de games e vender os direitos sobre o Channel F para uma empresa chamada Zircon International, em 1979. Lawson, por sua vez, saiu da companhia em 1980, fundando a Videosoft, com o intuito de desenvolver jogos justamente para o Atari 2600, mas saiu de vez dos holofotes e acabou sendo esquecido pela indústria.

Cerca de 30 anos depois, porém, a Game Developers Association, por meio do chefe de seu comitê de diversidade, Joseph Saulter, resolveu honrar os feitos de Lawson e o convidou para receber um prêmio pela sua contribuição para a indústria de games durante da Game Developers Conference de 2011, realizada em San Francisco.

O reconhecimento veio em tempo, uma vez que Lawson, portador de diabetes, acabou morrendo um mês após receber a honraria, deixando sua esposa, sua filha e seu filho. E, claro, sua contribuição por criar as bases de conceitos fundamentais que vemos até hoje no mundo dos games.

 

Jerry Lawson is a Silicon Valley pioneer on two fronts with one of the first video consoles created the Channel F, at his home in Santa Clara Tuesday March 1, 2011. Lawson developed the Channel F, the first video game console when he was working at Fairchild in the 1970s, and was among the valley's first black high-tech engineers. This week he was recognized by Blacks in Gaming, and on Friday will be recognized by the International Game Developers Association for his work. (Maria J Avila Lopez/Mercury News)

Jerry Lawson is a Silicon Valley pioneer on two fronts with one of the first video consoles created the Channel F, at his home in Santa Clara Tuesday March 1, 2011. Lawson developed the Channel F, the first video game console when he was working at Fairchild in the 1970s, and was among the valley’s first black high-tech engineers. This week he was recognized by Blacks in Gaming, and on Friday will be recognized by the International Game Developers Association for his work. (Maria J Avila Lopez/Mercury News)

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